Tropas israelenses colocaram nas ruas ontem seus tanques em demonstração de força e fizeram disparos de mísseis para enfrentar palestinos jogando pedras e atirando com fuzis automáticos, enquanto distúrbios tomavam a Cisjordânia e Faixa de Gaza, não deixando intocada praticamente nenhuma cidade ou vila palestina.
Helicópteros de combate israelenses lançaram foguetes ontem contra dois edifícios de apartamentos, um posto militar e dois veículos, na cidade de Gaza. É a primeira vez que Israel utiliza helicópteros para atacar alvos na região desde o início dos confrontos em territórios palestinos. Os dois edifícios sofreram grandes estragos, contaram as testemunhas.
Na escalada de violência, agora em seu quinto dia, já foram mortas 51 pessoas e mais de mil ficaram feridas, quase todas palestinas, e praticamente enterrou as esperanças de um acordo de paz para o Oriente Médio. Os dois lados admitiram que as conversações de paz se tornaram indefensáveis com uma guerra aberta sendo travada nas ruas.
Mesmo com pedidos de contenção surgindo de todo o mundo, o rápido aumento do número de vítimas fez crescer a fúria palestina e provocou ataques revanchistas contra civis israelenses, particularmente colonos judeus.
Na estrada que leva ao grande assentamento judeu de Ariel, na Cisjordânia, um vendedor de livros israelense de 24 anos foi morto a tiros.
Os confrontos também se espalharam para cidades árabes dentro de Israel. Oito árabes israelenses foram mortos apenas nos confrontos de ontem, informou a polícia, mais do que nos marcantes distúrbios causados por confisco de terras de 1976.
A polícia e manifestantes árabes travaram uma batalha de três horas nas estreitas vielas da ancestral cidade israelense de Akko. Na normalmente tranquila cidade costeira de Haifa – muitas vezes citada como modelo de coexistência pacífica entre judeus e muçulmanos – árabes israelenses promoveram uma greve geral em apoio a seus irmãos palestinos.
Os territórios palestinos, entretanto, mantiveram-se como o epicentro da violência. Na Cisjordânia e em Gaza, soldados israelenses se envolveram em dezenas de combates, com palestinos usando pedras e coquetéis molotov.
Nas proximidades da cidade de Tulkarem, na Cisjordânia, manifestantes incendiaram na noite de ontem oito fábricas de israelenses. O fogo lançou nuvens de gases tóxicos sobre o norte da Cisjordânia.
Pedaços de pedras, cápsulas deflagradas e vidros quebrados tomaram as ruas. Fumaça preta de pilhas de pneus em chamas se misturava com gás lacrimogêneo. O lamento de versos do Corão vindo de alto-falantes de mesquitas eram abafados pelo barulho de disparos.
O crescente uso de pesadas armas de combate por parte de Israel contribuiu para o fenômeno de vítimas em massa de um único incidente. Nas proximidades do assentamento de Netzarim, em Gaza, o disparo de um míssil antitanque contra um prédio feriu 35 palestinos, disseram funcionários de um hospital.
Os palestinos aprimoraram também seu poder de fogo. Apesar de a grande maioria dos manifestantes palestinos usar apenas pedras e garrafas, armas sofisticadas como fuzis e armas automáticas têm aparecido cada vez com maior frequência. Alguns manifestantes se protegem com colete à prova de bala.
Os noticiários são dominados por boletins de batalhas, e a retórica de ambos reflete o crescente senso comum de que os eventos evoluíram para uma guerra.
No domingo, Israel e a Autoridade Palestina (AP) haviam firmado o compromisso de deter a violência, com a intermediação da Casa Branca. Ontem, o governo americano informou que o primeiro-ministro israelense, Ehud Barak, e o presidente da AP, Yasser Arafat, concordaram em reunir-se em local a ser definido, com o objetivo de buscar o fim dos conflitos.
Barak fez ontem uma rápida visita a Gaza e Cisjordânia – regiões ocupadas pelo país desde 1967 – e, depois de uma reunião com os generais do Exército, disse que lamentava a cifra de vítimas palestinas e acusou os palestinos de terem organizado a escalada da violência com finalidade política.
Já a cúpula palestina responsabiliza o governo israelense pelos distúrbios, por ter autorizado a visita na quinta-feira do líder direitista Ariel Sharon, do partido Likud, à Esplanada das Mesquitas.

mockup