Vídeo com depoimentos de Clinton atiça o escândalo
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domingo, 20 de setembro de 1998
Paulo Sotero Agência Estado 
AparênciasDivulgação da fita gravada no Grande Júri, não deve abalar o relacionamento de Clinton e HillaryNos nove meses em que o affair Lewinsky tornou-se o assunto dominante da vida pública dos Estados Unidos, o presidente Bill Clinton; seu algoz, o promotor especial Kenneth Starr, e, mais recentemente, o Congresso, deixaram passar todas oportunidade que surgiram ao longo do caminho para fazer o que a opinião pública sensatamente reclama: encontrar uma saída negociada e encerrar o sórdido episódio.
Clinton, por exemplo, poderia ter admitido seu envolvimento sexual com a ex-estagiária Monica Lewinsky em janeiro passado. Starr, por sua vez, não precisava ter incluído todos os detalhes dos encontros do presidente com Lewinsky em seu relatório e deveria ter-se limitado a apresentar suas conclusões sem julgar, como fez, se elas constituem causas para impeachment, porque isso não é assunto da sua competência, mas prerrogativa constitucional do Legislativo.
Em lugar de fazer escolhas difíceis, mas sábias, os principais atores tomaram o caminho exatamente oposto. O processo psico-político-sexual de demolição mútua que governa hoje as decisões em Washington continuava ontem com a divulgação de uma fita de vídeo do depoimento que Clinton prestou ao Grande Júri, no dia 17 de agosto, na Casa Branca, por circuito fechado de televisão. A fita de vídeo foi gravada por um acordo entre o promotor e os advogados do presidente, porque um ou dois dos 23 membros do Grande Júri não estariam presentes.
Em qualquer outro caso, a publicação de material apresentado a um Grande Júri seria crime grave e daria cadeia. Mas a distribuição das quatro horas do interrogatório do presidente tem plena chancela oficial, pois foi aprovada na sexta-feira passada pela Comissão de Justiça da Câmara dos Representantes, em sessão secreta.
Há dois argumentos legais por trás da decisão da maioria republicana de divulgar a fita. Uma é o voto do plenário da Câmara, na sexta-feira atrasada, que autorizou a publicação do relatório Starr, do qual o depoimento de Clinton faz parte. A outra é o fato de o depoimento constituir a peça central de um provável processo de impeachment contra o presidente, que não pode ocorrer sem que os cidadãos tenham acesso a todas as informações relevantes. Além do teipe, serão publicadas 2.800 páginas de transcrições de vários depoimentos ao Grande Júri, com 120 trechos censurados, por conter linguagem considerada ofensiva pelos deputados.
A razão política dos líderes republicanos para divulgar o teipe é menos elevada. As imagens que serão exibidas amanhã, a partir das 9 horas da manhã, 10 horas em Brasília, por várias redes de televisão, mostram um Clinton muito pouco presidencial, às vezes irado, fora de controle, visivelmente envergonhado, mas também evasivo diante das perguntas sobre os pormenores de seus encontros sexuais com Lewinsky. O cálculo dos líderes republicanos é que, devidamente editadas, as imagens darão fartíssima munição para a campanha do partido nas eleições legislativas de novembro.
A opinião entre os deputados que viram o teipe e pessoas que ouviram relatos detalhados sobre seu conteúdo é dividida. Alguns acham que a fita machucará ainda mais um presidente já desacreditado e politicamente morto, particularmente porque pode convencer o público de que ele mentiu durante o depoimento e cometeu perjúrio numa investigação criminal, o que é uma ofensa séria e pode justificar a abertura de um processo de impeachment.
Outros acham que, exatamente por essa razão, a divulgação da fita do depoimento de Clinton pode causar uma forte reação contra os republicanos. O senador John Kerrey, democrata de Massachusetts que continua a buscar uma saída rápida e negociada para a crise, comparou ontem a divulgação do teipe a uma forma de tortura lenta do presidente. A atual liderança do partido conservador é famosa por sua capacidade de extrair derrotas de vitórias, medindo mal sua própria força e adotando estratégias equivocadas em momentos-chave.
Renúncia Sem defender expressamente a renúncia, o influente The Washington Post afirmou em editorial, na semana passada, que, diante das mesmas circunstâncias que Clinton enfrenta, um homem honrado renunciaria. Entre políticos e comentaristas, ainda não se arriscam previsões sobre o desfecho da história. Mas alguns já começam a imaginar os cenários que poderiam abrir a porta para a renúncia de Clinton possível.
Amparado pelas pesquisas de opinião, que continuam a mostrar considerável apoio ao desempenho de seu governo, Clinton já disse que não renunciará.


