Videla pode ficar o resto da vida preso
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sábado, 13 de junho de 1998
Ariel Palacios Especial para a AE 
O ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla agora possui um novo endereço: a prisão de Caseros, um complexo penitenciário de 23 andares. De longe, parece um moderno edifício que se destaca no casario baixo da zona sul de Buenos Aires. Na seção onde ficará detido por tempo ainda indeterminado, há quatro celas, que ficam com as portas abertas e possuem um só banheiro de uso comum. A cela em que Videla está tem 1,23 metro por 2 metros e ele a compartilha com o ex-secretário de combate ao narcotráfico Gustavo Green.
Videla, de 71 anos, está detido desde terça-feira, acusado de ser o autor ideológico do sequestro e encobrimento da identidade de filhos de desaparecidos nascidos em campos de concentração durante a última ditadura militar (1976-1983).
Videla é acusado de cinco sequestros. Mas sua situação pode piorar: na terça-feira, o juiz Roberto Marquevich começará a receber e analisar documentos para indiciar Videla em outros 40 casos de sequestro de crianças. Dependendo das penas, Videla poderia pegar de 3 a 25 anos de prisão. Mas analistas políticos consideram que Videla permanecerá preso até o fim de seus dias.
Videla pediu a proteção do Conselho Supremo das Forças Armadas, como forma de tirar a legitimidade da Justiça Civil que o está processando. Mas Videla não é mais um militar, já que foi expulso das fileiras do Exército após seu primeiro julgamento, em 1985. Videla foi anistiado em 1990, mas o indulto concedido pelo presidente Carlos Menem não cobre o crime de sequestro de menores.
A presença de Videla nos tribunais será disputada, além de Marquevich, pelo juiz Adolfo Bagnasco, que investiga o paradeiro do corpo do líder guerrilheiro Mario Santucho, cuja morte ocorreu durante o governo do ex-general.
Bagnasco também tenta comprovar que Videla aprovou um plano de roubo sistemático de filhos de pessoas sequestradas pela ditadura e os assassinatos e sequestros não eram cometidos ao acaso.
O grupo de defesa dos direitos humanos Avós da Praça de Maio registrou até o momento 230 casos de crianças desaparecidas, aos que se acrescentam outros 44 casos da Comissão Nacional de Direito à Identidade. Cinquenta e nove casos foram resolvidos, incluindo oito de crianças descobertas mortas pelos militares.
Entre os casos de crianças desaparecidas, há 13 de adoção de boa-fé. Trinta e quatro crianças foram restituídas às famílias originais e quatro casos ainda estão na Justiça.
A organização das avós calcula que o total de casos denunciados de crianças desaparecidas poderia aumentar para 500, já que diversos nascimentos ocorreram nos centros clandestinos sem que os parentes soubessem que suas filhas ou netas estavam grávidas.
Aqueles que procuram um filho, neto, sobrinho ou irmão nem sempre possuem dados concretos e precisam sustentar suas esperanças em um vago testemunho, uma aproximação de datas ou um telefonema anônimo no meio da noite. Abel Madariaga é um deles - e o principal ator do episódio que levou Videla à prisão: o caso Bianco.
A macabra história começa quando o médico militar Norberto Atilio Bianco e sua mulher, a enfermeira Nilda Wehrli, registram como seus uma menina (Carolina) e um menino (Pablo). Causou estranheza entre os amigos do casal que ambos os partos tivessem ocorrido na casa dos Biancos, não na maternidade. Além disso, ex-colegas de trabalho do casal sustentaram que os dois haviam revelado que seus filhos eram, na verdade, filhos de desaparecidos.
Minha mulher, Silvia Quintela, foi sequestrada em janeiro de 1977, grávida de quatro meses. Testemunhas que sobreviveram ao horror de Campo de Mayo contaram que ela havia dado à luz um menino, afirma Madariaga, que se supõe pai de Pablo. Com os olhos marejados, Madariaga explica que, três dias após o parto, Silvia transformou-se em mais uma passageira dos vôos da morte: foi separada de seu filho, levada para um avião e jogada no Rio da Prata.
Madariaga conseguiu fugir para o Rio de Janeiro, onde o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados se encarregou de levá-lo até a Suécia, onde morou até o fim da ditadura militar na Argentina, em 1983.
Bianco foi denunciado em 1984 e fugiu para o Paraguai com as crianças, lembra Madariaga. Em 1987 eles foram localizados, mas sua extradição só foi feita em 1997.
Logo depois, Madariaga foi a Assunção tentar falar com o suposto filho, mas nada conseguiu. Há outros quatro repressores que se refugiaram no Paraguai com os filhos. As crianças ficam escondidas e, no caso Bianco, fizeram-nas casar aos 15 anos. Mesmo casados e com filhos , continuaram morando na mesma casa dos pais. O mecanismo é de apropriação completa, afirma Madariaga.
Ele sofre com a negativa de Pablo de realizar os testes de DNA, mas espera que ele e Carolina se conscientizem do problema e, com isso, possam eliminar o sofrimento de outras três famílias que também imaginam que possam ser parentes de Pablo.


