Cidade do Vaticano - No primeiro dia de trabalhos do Sínodo da Amazônia, no Vaticano, o cardeal dom Cláudio Hummes, relator-geral do evento, afirmou nesta segunda-feira (7) que a vida nessa região nunca esteve tão ameaçada, devido a problemas gerados por situações que contam com a "conivência" ou a "permissividade" de governos e até autoridades indígenas.

Dom Cláudio Hummes e o papa Francisco durante apresentação de temas no evento no Vaticano
Dom Cláudio Hummes e o papa Francisco durante apresentação de temas no evento no Vaticano | Foto: Andreas Solaro/AFP

A fala fez parte da sua apresentação dos principais temas que serão abordados pelos 250 participantes da assembleia que reúne bispos, especialistas e outros convidados da região amazônica. Junto com o Brasil, são nove países que se espalham pelo bioma - do total de 185 bispos, 57 são brasileiros.

"A vida na Amazônia talvez nunca tenha estado tão ameaçada como hoje, pela destruição e exploração ambiental, pela violação sistemática dos direitos humanos elementares da população amazônica, de modo especial, a violação dos direitos dos povos indígenas", disse o cardeal, sentado ao lado do papa Francisco.

O brasileiro preside a Comissão Episcopal pela Amazônia da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e a Repam (Rede Eclesial Pan-Amazônica) e é um dos cardeais mais próximos do papa.

"Segundo o processo de escuta sinodal da população, na Amazônia a ameaça à vida deriva de interesses econômicos e políticos dos setores dominantes da sociedade atual, de maneira especial de empresas que extraem de modo predatório e irresponsável, legal ou ilegalmente, as riquezas do subsolo e da biodiversidade", afirmou dom Cláudio.

Apesar de não citar nenhum país ou governante especificamente, o relatório do cardeal ecoa dados divulgados recentemente sobre o aumento do desmatamento na floresta e o crescimento de invasões e violência contra moradores da porção brasileira do bioma.

O evento dos bispos no Vaticano foi alvo de críticas do governo Jair Bolsonaro, que o avalia como uma tentativa de questionar a soberania nacional na Amazônia.

O sínodo, que segue até o dia 27 de outubro, tem como ponto de partida o "instrumentum laboris", um instrumento de trabalho que, na prática, funciona como uma pauta para o início das discussões. Essa sequência de temas foi elaborada a partir da escuta da população dos noves países da Amazônia, com mais de 87 mil pessoas oficialmente consultadas.

Dom Cláudio fez uma lista dos motivos que estão, segundo relatos colhidos nas comunidades, ameaçando vidas na região: criminalização e assassinato de líderes e defensores do território, presença de madeireiras legais e ilegais e grandes projetos como hidrelétricas.

A relação apresentada por ele contabilizou ainda desmatamento para produzir monoculturas, narcotráfico, uso indevido da água e contaminação causada por indústrias extrativistas, além de problemas sociais, como violência contra mulher e tráfico de pessoas.

O cardeal também destacou a precariedade da vida urbana da Amazônia, causada por fluxos migratórios, tanto entre países da América Latina quanto pelo movimento de indígenas que se mudam para as cidades. "Eles [indígenas] necessitam de uma lúcida e misericordiosa atenção para não perecerem culturalmente e mesmo humanamente na cidade, enfrentando miséria, descaso, desprezo e rejeição e consequentemente provando um vazio interior desesperador", declarou.

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