Viagem do papa facilitou relaxamento
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sexta-feira, 20 de março de 1998
Paulo Sotero Agência Estado 
Araquivo FolhaO Papa em Havana: efeitos devastadores entre cubanos nos EUAPor trás da decisão do governo dos Estados Unidos de amenizar o embargo econômico contra Cuba, que o presidente Bill Clinton anunciou ontem, está o potente impacto que a visita do papa João Paulo II à Cuba, em janeiro passado, teve não apenas na ilha mas sobre a influente comunidade de 1,5 milhão de cubanos-americanos do sul da Flórida.
A administração Clinton detectou a mudança que a visita do papa provocou em Miami, disse Lilian Pubillones Nolan, pesquisadora cubana-americana do Diálogo Interamericano, um centro de estudos em Washington.
Nos gestos e nas palavras, durante a visita o papa reconheceu a realidade da presença de Castro, mas exortou os cubanos a ver além de Castro e assumir o controle de suas vidas e de seus destinos. O efeito disso foi acabar com a obsessão da comunidade cubano-americana com Fidel Castro, disse Lilian.
A nova dinâmica que a visita do papa criou em Miami é devastadora para as noções preconcebidas dos líderes da comunidade, para quem todos os males que há em Cuba derivam da presença de Castro, nada de positivo pode acontecer enquanto ele estiver em Havana e todos os problemas estarão resolvidos uma vez que ele saia de cena.
Jorge Dominguez, cubano-americano que ensina na Universidade de Harvard, concorda. Segundo ele, a visita legitimou a posição de uma parte importante da comunidade, que, embora radicalmente anticastrista, quer ter mais contato com Cuba e ver o embargo atenuado.
Cada vez mais, nos programas de rádio de Miami você ouve pessoas que telefonam para dizer que continuam a odiar Castro mas querem mandar dinheiro e presentes para tia Julia, em Havana, disse Dominguez.
As medidas anunciadas ontem permitirão o reinício dos vôos fretados entre os Estados Unidos e Cuba para o transporte de ajuda humanitária e das remessas de dinheiro a parentes na ilha, até o limite de US$ 1.200 por ano, em quatro parcelas. Elas reautorizam, também, a exportação de remédios e equipamentos médicos para Cuba.
As três coisas foram proibidas no início de 1996, depois que a força aérea de Havana derrubou dois aviões desarmados tripulados por militantes anticastristas sobre águas internacionais, no Estreito da Flórida.
O relaxamento das restrições, que reverte o embargo ao status de dois anos atrás, é uma resposta ao que o papa fez e não a qualquer ação de Castro, disse um alto funcionário da administração, para sublinhar que a decisão de Washington não representa uma concessão a Havana e muito menos uma mudança de sua política em relação a Cuba.
Continuo a acreditar na validade de nossa política, que está baseada em quatro componentes principais, confirmou Clinton. Os quatro pilares da estratégia de Washington são a manutenção da pressão por mudanças democratizantes na ilha, a continuação da ajuda humanitária ao povo cubano, a articulação de um maior apoio internacional para promover mudanças em Cuba e a insistência para que Havana mantenha uma política que permita a emigração de forma organizada dos que quiserem deixar o país.
Para Lillian Pubillones, o fato de Clinton ter confirmado sua decisão de atenuar o embargo apesar das duras críticas que ela provocou no comando do lobby anticastrista, representado pela Fundação Nacional Cubano-Americana, (CANF) e entre seus aliados no Congresso, confirma o distanciamento que a visita do papa produziu entre a comunidade cubana-americana e seus líderes. Ao falar contra o embargo econômico, o papa desmistificou o assunto, disse ela.
O senador Jesse Helms, um ultraconservador da Carolina do Norte e presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, que usou o episódio da derrubada dos aviões em 1996 para intimidar terceiros países a desistir de investimentos em Cuba e transformou o embargo, de medida administrativa do executivo, em lei do Congresso, detectou a nova dinâmica criada pela peregrinação papal e tentou reagir. No final de janeiro passado, ele propôs um esquema de envio de ajuda humanitária direto ao povo cubano. Mas a idéia não saiu do papel por causa das divergências entre os líderes da CANF sobre como colocar a idéia em prática sem dar a impressão de estar cedendo a Castro.
Com as medidas que anunciou ontem, Clinton retoma a iniciativa da política dos EUA para Cuba.


