Veteranos expurgam traumas do Vietnã
Associated Press
De Phone Hong
Pesadelos com o mais intenso bombardeio aéreo da história trouxeram o veterano de guerra norte-americano Lee Thorn de volta aos antigos campos de batalha na Indochina, desta vez para ajudar a tratar o povo do local, que continua sofrendo, e a si mesmo.
Quase todas as noites, por três décadas, Lee Thorn diz que sonhou que estava montando numa bomba e gritava em direção à terra e a um grupo de crianças e animais que estavam para ser mortos. Bombas como aquelas que ele havia carregado os aivões da marinha. Por isso, o veterano de 56 anos veio para o Laos e para o Vietnã. Pela primeira vez em 31 anos, Thorn foi capaz de dormir até o amanhecer.
O Laos não é sequer mencionado nos livros de história das escolas secundárias norte-americanas, diz Thorn, entrando num dos 10 hospitais abandonados para o qual ele forneceu estoques de remédios vitais. Ainda assim, o que aconteceu aqui foi o pior dos horrores de guerra.
A última bomba norte-americana caiu no Laos 27 anos atrás e os comunistas celebraram o 25º aniversário de sua vitória este ano, mas Thorn diz que a reconciliação está longe de ser completa e o sofrimento de guerra persiste.
Munição norte-americana que não explodiu, particularmente pequenos dispositivos pessoais, continuam a matar e mutilar centenas de pessoas nos campos laosianos, especialmente na Planície de Jarra, o local de nascimento de Boonthanh Phommasathit, que auxilia Thorn em seus planos.
Quando menina, Boonthanh fugiu dos bombardeios e, vários anos depois da vitória comunista, tornou-se refugiada pela segunda vez quando ela, seu marido e dois bebês escaparam para a vizinha Tailândia. No final, eles conseguiram asilo nos Estados Unidos. Assistente social em Etna, Ohio, Boonthanh visitou sua terra natal em 1991, encontrando miseráveis condições de saúde e pobreza em Phone Hong. Ela estabeleceu contato com Thorn, em 1997.
O Laos, diz Thorn, ficou em sua mente. Era o local esquecido da Guerra do Vietnã e precisava de ajuda. Um dos mais pobres países do mundo, o Laos tem uma das maiores taxas de mortalidade infantil da Ásia e uma expectativa de vida de 53 anos.
No início de 1998, Thorn e seu amigo de infância Richard Stoll, um advogado de São Francisco, recolheram 90 quilos de medicamentos em sacolas e enviaram para Phone Hong. Boonthanh trouxe mais remédios. Trabalhando com médicos, professores e autoridades locais, o Projeto Corações e Mentes-Laos será enfocado este ano no fornecimento de água, saneamento básico e educação para saúde para escolas de vilas pobres.
Thorn lançou o excelente Arabica typica, um café produzido no Laos, no mercado norte-americano e destina os lucros para os projetos no país asiático. O que nós estamos tentando fazer é o oposto da guerra, diz Thorn, um homem de fala suave com uma bem aparada barba branca. O nosso é um projeto de reconciliação.
Thorn lembra que a princípio não questionou inicialmente o envolvimento dos EUA na Indochina. Muitos dos aviões do porta-aviões despejaram suas cargas sobre a Planície de Jarra, onde as forças apoiadas pelos EUA tentavam deter os comunistas laosianos e seus aliados norte-vietnamitas. Os EUA, no final das contas, lançaram 2 milhões de toneladas de bombas no Laos, mais do que foi usado pelas forças durante toda a Segunda Guerra Mundial.
O que o fez uma pessoa contrária à guerra e deu início a seus traumas, conta Thorn, foi o ataque à refinaria de petróleo no porto norte-vietnamita de Haiphong. Uma intensa tempestade de fogo foi iniciada e atingiu as áreas residenciais ao redor. O então jovem oficial da marinha recebeu a função de fazer a peneira depois da operação de ataque três vezes.
Thorn aponta um mural numa parede de um templo budista próximo a Phone Hong descrevendo uma visão do inferno: homens perfurados por lanças, cozidos e abatidos como animais, mulheres encarceradas e estupradas.
A primeira vez que ele veio a este velho e calmo santuário foi durante sua viagem ao Laos e ao Vietnã em 1998, e ele se tornou um local especial, o lugar onde seus pesadelos tiveram fim. Para mim esta pintura é a guerra e ela está colocada próxima a imagens de grande paz, diz Thorn. Eu comecei a entender que os aldeões aqui, que sofreram tanto, poderiam aceitar tal horror como parte da vida, que eles poderiam levar uma vida normal.Na busca por tranquilidade e paz, soldados voltam para ajudar moradores de Laos a enfrentar a miséria e doenças que até hoje os atingem
France PresseCenas do conflito que terminou em 1975, com a retirada das tropas norte-americanas. Os horrores da guerra deixaram marcas profundas na população vietnamita e nos veteranos que sofrem com os traumas resultantes dos campos de batalha





