Venezuelanos protestam contra convocação de Constituinte
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terça-feira, 02 de maio de 2017
France Presse 

Caracas - Centenas de manifestantes bloquearam ruas e estradas em Caracas e outras cidades da Venezuela, ontem, em protesto contra a convocação de uma Assembleia Constituinte pelo presidente Nicolás Maduro, o que afasta a possibilidade de eleições gerais exigidas pela oposição.
Panelas e buzinas soavam nas ruas bloqueadas com barricadas de lixo, constataram repórteres da AFP. Uma enorme bandeira da Venezuela foi aberta no chão nos arredores de Altamira, reduto da oposição no leste da capital. Pilhas de lixo e árvores derrubadas também cortavam a passagem em Montalban, no oeste, do outro lado da cidade.
O tráfego de veículos na estrada Francisco Fajardo, que atravessa de leste a oeste Caracas, era baixo, enquanto centenas de pessoas estavam indo à pé para os seus empregos. Na segunda-feira, após um mês de manifestações exigindo a saída de Maduro do poder por meio de eleições gerais e que levaram a distúrbios com um saldo de 28 mortos e centenas de feridos, o presidente convocou uma Constituinte "popular", cujos membros da Assembleia não seriam eleitos por sufrágio universal, mas por setores sociais e comunidades.
"É um verdadeiro gatilho histórico para aprofundar a revolução", prometeu o presidente, que acusa a oposição de promover "atos de terrorismo" para derrubá-lo e incentivar a intervenção internacional. Em resposta, a oposição prepara para hoje uma grande manifestação que chamou de "mega-marcha".
"Esta Constituinte anunciada por Maduro é uma manipulação para escapar das eleições. O meu voto não vale mais ou menos do que o de ninguém", disse à AFP Raúl Hernández, um estudante universitário de 22 anos que bloqueava com uma centena de pessoas a avenida Francisco de Miranda, uma das principais estradas do leste de Caracas.
Moradores denunciaram à imprensa local que as forças de segurança usavam gás lacrimogêneo para quebrar os bloqueios nas áreas de El Paraiso (oeste) e La Urbina (leste).
REPERCUSSÃO
O chanceler brasileiro Aloysio Nunes qualificou como "golpe" a proposta do presidente Nicolás Maduro de convocar uma Assembleia Constituinte "popular", com legisladores que não serão escolhidos pelo voto universal, em meio à grave crise que atinge a Venezuela.
"Qualifico como um golpe a proposta do presidente Nicolás Maduro de convocar uma Assembleia Constituinte na Venezuela. É mais um momento de ruptura da ordem democrática, contrariando a própria Constituição do país", disse Nunes em uma mensagem divulgada em seu Facebook.
O Departamento de Estado Americano, por sua vez, declarou que a convocação de uma Assembleia Constituinte não parece ser um esforço genuíno para alcançar uma reconciliação que permita ao país superar a crise . "Nossa preocupação é que, pelas indicações iniciais, este processo não se perfila como um esforço genuíno de reconciliação nacional, que é do que a Venezuela realmente precisa", avaliou o subsecretário adjunto para o Hemisfério Ocidental, Michael Fitzpatrick.
"Claramente, eles decidiram mudar as regras com o jogo já na metade. As coisas não estão funcionando para eles, de forma que vão tentar com outra coisa", opinou Fitzpatrick.
O subsecretário também criticou a decisão do governo da Venezuela de iniciar o processo de retirada da Organização dos Estados Americanos (OEA) - mais um passo na direção de "um maior isolamento", segundo ele.
De acordo com as normas da OEA, o processo de saída da Venezuela se completará em um período de dois anos e, nesse prazo, o Departamento de Estado acompanhará atentamente o que ocorra no país sul-americano.
"O anúncio de que não participarão mais de reuniões da OEA é um retrocesso e será visto como mais passo na direção de um maior isolamento", completou. Com essa decisão, acrescentou o subsecretário, o governo de Maduro entra ainda mais no beco sem saída em que o país se encontra.


