Venezuela enfrenta desabastecimento
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sexta-feira, 05 de fevereiro de 2016
Samy Adghirni<br>Folhapress 
Caracas - Faz três meses que o mercado estatal Bicentenário em Guatire, periferia a leste de Caracas, não é abastecido com frango, item até então poupado da escassez na Venezuela. A dez minutos de carro dali, outro mercado estatal, o PDVAL, ainda recebe frango ocasionalmente. Numa manhã recente, porém, o estoque era insuficiente diante da multidão amontoada no local desde a madrugada. Funcionários e soldados com fuzis explicavam que só metade das mil pessoas na fila poderiam adquirir a cota individual de dois frangos a preço regulado. Houve gritaria e empurra-empurra. "Nós nos comportamos como mortos de fome", disse a dona de casa Susana Oshoa, número 379 na fila, conforme rabiscado em seu braço.
O desabastecimento atinge níveis recordes desde novembro, quando o caos que assola o país há anos deu salto repentino devido ao agravamento das crises econômica e política. Proliferam saques e pancadaria no comércio. Incidentes são filmados e propagados na internet.
Um dos temas mais urgentes é a falta de remédios. Segundo um consultor da indústria farmacêutica que pediu anonimato, entre os 6 mil medicamentos registrados no país, menos de 450 estão disponíveis. O setor alertou informalmente a Organização Mundial da Saúde sobre o risco de uma crise humanitária. A escassez de remédios aumenta a preocupação com o zika. O governo admite 4,7 mil casos, mas médicos falam em dezenas de milhares.
A saúde pública também está em alerta devido ao racionamento de água anunciado em janeiro pelo governo, que culpa a seca, mas é acusado de ter sucateado a infraestrutura hídrica. Em algumas favelas, a água só chega em caminhões.
INFLAÇÃO E CRIMES
A inflação fechou 2015 como a mais alta do mundo (190%) e caminha para quadruplicar neste ano, com previsão de 720%, de acordo com o FMI. Preços de artigos não tabelados parecem surreais. Um quilo de tomate ou uma lata de atum custam mil bolívares - 10% do salário-mínimo, de 10 mil bolívares, que equivale a US$ 10 na cotação paralela.
Há algumas semanas, a dona de casa Evelyn Cáceres, 43, fez algo que jamais imaginava: recolheu pimentões no lixo. Outro problema grave é a criminalidade. Caracas acaba de ser proclamada a cidade mais violenta do mundo (fora áreas sob guerra) por uma ONG mexicana que emite ranking a cada ano. A noite de Natal foi a mais violenta de 2015 em Caracas, com 30 assassinatos. E, desde 2007, não havia janeiro com tantas mortes violentas.
RAÍZES DO CAOS
Num país rentista que tem no petróleo sua virtual única fonte de divisas, a queda do preço do barril desde 2014 acirrou uma recessão consolidada havia tempo devido aos ataques do governo contra o setor produtivo. Em 17 anos no poder, o chavismo expropriou centenas de empresas (muitas das quais hoje abandonadas), prendeu empresários e impôs controles de câmbio e de preços que minaram produção e investimento. O presidente Nicolás Maduro diz que a crise é parte de uma "guerra econômica" e acusa a oposição de golpismo. Dias piores são esperados. A oposição diz que não há um navio sequer trazendo alimentos ao país.


