São Paulo- O Vaticano recomenda, em documento sobre a pastoral em relação aos migrantes, que os bispos evitem celebrar casamentos entre católicos e muçulmanos, por causa da diferença de fé e também ''pelos resultados de amargas experiências'' dessas uniões. A Igreja pede particular atenção no caso de matrimônio de uma mulher católica com um fiel muçulmano.
A advertência consta da instrução Erga migrantes caritas Christi (A caridade de Cristo para com os migrantes), divulgada ontem pelo cardeal japonês Stephen Fumio Hamao, presidente do Pontifício Conselho da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes. Embora trate da atitude que a Igreja deve ter, em geral, com relação a crentes de todas as religiões, o documento dá ênfase aos muçulmanos, pelo fato de essa comunidade ser cada vez mais numerosa em vários países de tradição cristã.
''No caso de transcrição do matrimônio num consulado de país de proveniência islâmica, a parte católica deverá estar atenta para não pronunciar ou assinar documentos que contêm a shahada (profissão de crença muçulmana)'', adverte a instrução do Vaticano.
Padre José Bizon, diretor da Comissão para o Ecumenismo e Diálogo Religioso da Arquidiocese de São Paulo, observou que a instrução do Vaticano não deve interferir na convivência entre católicos e muçulmanos no Brasil. ''Tenho boas relações com os xeques e não me lembro da realização de casamentos mistos entre noivos das duas religiões'', disse o padre.
O xeque Ali Abdouni, representante da Assembléia Mundial da Juventude Muçulmana (Wany, na sigla em inglês) na América Latina, lamentou ontem o conteúdo do documento do Vaticano e contestou algumas das informações expostas por ele. ''Em primeiro lugar, uma mulher não-muçulmana que se casa com um muçulmano não precisa pronunciar a shahada'', disse. ''Além disso, a religião islâmica impõe ao homem que se casa com uma não-muçulmana que ele respeite a religião e o culto dela''.

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