Cidade do Vaticano - Oficialmente, o Vaticano não abrirá o processo de beatificação de João Paulo 2º até que não decida quem será o novo papa, mas na Santa Sé a campanha parece ter começado a fazer conjecturas.
Ontem, o secretário pessoal de João Paulo 2º, o polonês Stanislaw Dziwisz, foi primeira página do jornal La Stampa, relatando um milagre realizado pelo papa no final dos anos 90. ''Eis aqui o milagre'', intitulou a publicação, que fez referência a um fato narrado pelo confidente do falecido papa há algum tempo, sobre um americano que estava muito doente de câncer e que se curou depois de receber a comunhão das mãos de João Paulo 2º.
O suposto milagre teria ocorrido em 1998 quando este homem, acreditando-se desenganado, foi ao Vaticano com o desejo de ver o papa. ''Me lembro dele muito bem. Seu rosto mostrava que estava muito doente, não tinha cabelo por causa da quimioterapia'', explicou Dziwisz.
O papa, que ia celebrar uma missa particular, deu a comunhão ao homem com suas próprias mãos e depois o saudou pessoalmente. O secretário pessoal do Sumo Pontífice se deu conta de que o homem não tinha o hábito de receber a comunhão e só depois da missa soube que o doente não era católico, nem mesmo cristão, mas judeu.
Segundo Dziwisz, algum tempo depois souberam que o homem, que tinha um tumor cerebral, estava curado. O secretário pessoal do papa, que nunca revelou o nome deste homem, não falou de milagre, mas de um ''sinal do poder de Deus'', que vai além do entendimento humano.
Além disso, no sábado, durante a primeira das nove missas que serão celebradas por João Paulo 2º, o cardeal Francesco Marchisano garantiu que um toque do papa em seu pescoço fez com que imediatamente voltasse a falar. Ele havia sido operado na carótida e um erro médico havia causado uma lesão nas cordas vocais, deixando-o com um fio de voz.
Outros supostos milagres foram atribuídos a João Paulo 2º, a quem os fiéis aclamaram aos gritos de ''Santo já!'' na missa fúnebre celebrada na sexta-feira, na praça de São Pedro, no Vaticano.
No México, um jovem garante ter recebido em 1990 a bênção papal, depois da qual paulatinamente se curou de uma leucemia. Além disso, uma religiosa colombiana, a irmã Ofelia Trespalacios, garantiu que a bênção de João Paulo 2º, há 20 anos em Roma, a curou de uma doença no ouvido que os médicos diagnosticaram como ''incurável''.
Segundo La Stampa, o Vaticano abriu um arquivo para receber casos de curas ocorridas graças à interseção de João Paulo II, que em vida já tinha fama de santo.
Mas hoje em dia ser beato e posteriormente santo é complicado já que, em teoria, devem-se superar escrupulosas provas científicas e respeitar margens específicas de tempo. Ficou para trás o tempo em que as canonizações eram proclamadas por aclamação popular. Atualmente, o caminho rumo à santidade tem vários passos. O primeiro deles é ser considerado servo de Deus, título reservado para uma pessoa morta que teve uma existência exemplar do ponto de vista da Igreja.
Posteriormente, é preciso esperar cinco anos para torná-la beata, prazo que o Papa pode reduzir graças a uma ordem especial, como ocorreu no caso da madre Teresa de Calcutá, cujo processo de beatificação começou excepcionalmente um ano depois da sua morte, por desejo de João Paulo 2º.
Para ser beato é preciso comprovar um milagre depois da morte, o que deixa sem valor todos os atribuídos até agora a João Paulo 2º. Um outro milagre, ocorrido após a beatificação, é necessário para a canonização.
O Vaticano lembrou no sábado que a abertura do processo de beatificação de João Paulo II será competência exclusiva do novo papa. Dos 264 sucessores de São Pedro, 78 deles foram feitos santos e 10, beatos.
João Paulo II foi conhecido como o maior fazedor de santos e beatos da história da Igreja, com um total de 1.342 beatificações e 482 canonizações. Segundo ele, a santidade era como o ''DNA da Igreja''.

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