Vaticano ainda investiga homicídio
Assimina Vlahou
Especial para a AE

France Presse
O papa João Paulo II deu ontem a última bênção a Alois Estermann, sua esposa e suposto assassinoO papa João Paulo II visitou os corpos do ex-comandante de sua guarda pessoal, Alois Estermann, de sua esposa Gladys Romero e do oficial Cedric Tornay, expostos na capela da Guarda Suíça ontem pela manhã. Logo após a audiência das quartas-feiras, que ocorreram normalmente, o santo padre dirigiu-se à Igreja de Sant’Anna e lá ajoelhou-se diante dos três caixões, abertos para a visita dos habitantes da Cidade do Vaticano, dos soldados da Guarda Suíça e dos parentes.
Durante a tarde, o cardeal Angelo Sodano, chefe de Estado Vaticano, celebrou a cerimônia fúnebre do casal Estermann diante de um grupo de cardeais, do corpo diplomático suíço e dos parentes do casal. É a primeira vez na história da Basílica de São Pedro que lá são celebrados os funerais de uma mulher.
Ainda chocado pela tragédia, o papa recordou as vítimas durante a audiência pública, diante de milhares de fiéis presentes na Praça de São Pedro. ‘‘Transmito minhas condolências aos pais e parentes do comandante Alois Estermann e de sua esposa e elevo minha oração ao Senhor para que acolha suas almas a seu lado, na paz’’, disse o pontífice e recordou com gratidão a dedicação do comandante que o socorreu logo após o atentado de maio de 1981.
‘‘O comandante Estermann era uma pessoa de grande fé e de grande dedicação ao dever, durante 18 anos prestou um serviço fiel e precioso do qual lhe sou pessoalmente grato’’, afirmou. O pontífice, depois, mencionou o oficial Credic Tornay. ‘‘Estou também próximo do sofrimento dos parentes do vice-cabo Cedric Tornay, que se encontra agora diante do juízo de Deus - a cuja misericórdia eu o confio’’.
O funeral de Tornay vai ser celebrado hoje na Igreja de Sant’Anna, apesar de ser considerado suicida, condição que antes impedia a bênção religiosa. Com a reforma do Código de Direito Canônico, a partir de 1983 os suicidas também passaram a ter direito a funeral católico.
O porta-voz do Vaticano, Joaquim Navarro Valls, fez questão de precisar que o caso não está encerrado para o Vaticano e que por ora existe apenas a ‘‘certeza moral’’ de que tratou-se de homicídio seguido de suicídio por parte de Cedric Tornay. As três autópsias, concluídas ontem, foram feitas no Vaticano. Os legistas Piero Fucci e Giovanni Arcudi, consulentes do Vaticano há mais de 20 anos, que foram chamados na noite do delito, estão fazendo também os testes de parafina e o exame toxicológico.
Reconstruindo a cena que viu na noite do crime, Joaquin Navarro Valls explicou que os corpos foram encontrados do lado esquerdo do pequeno apartamento. Os dois homens estavam de bruços e Gladys Romero sentada com as costas na parede. Depois falou sobre a trajetória dos projéteis. ‘‘Alois Estermann foi atingido por duas balas, uma penetrou pelo lado esquerdo do rosto, atingindo a coluna cervical e a espinha e o outro, pelo lado esquerdo do pescoço’’.
De acordo com o resultado da autópsia ficou evidente que Tornay foi atingido por um tiro na boca e que a senhora Gladys por um projétil no ombro que perfurou a espinha. Mas só o exame de parafina e a perícia balística darão a confirmação definitiva se foi o soldado a disparar. Falta também identificar o quinto projétil que teria sido disparado pela Stig 75 do soldado e que se enfiou no teto do apartamento.
Dar notícias para impedir boatos e hipóteses fantasiosas parece ser a linha que o Vaticano decidiu seguir no caso da tragédia que envolve a Guarda Suíça. Este tipo de comportamento não é corriqueiro na Santa Sé que normalmente é muito mais discreta. Mas apesar da disponibilidade do porta-voz do Vaticano, o ambiente, as condições em que acontecu o crime e o mistério que sempre envolveu a cidade do papa, além do tradicional silêncio sobre tudo o que é relacionado com o Vaticano, estimulam a imaginação de jornalistas, psicólogos e principalmente escritores de textos policiais.
O caso se presta facilmente ao exercício da imaginação. Não ficou claro até agora, por exemplo, por que o soldado resolveu matar o casal, principalmente a esposa do comandante. O fato de ter recebido uma advertência e de não ganhar uma medalha não convencem completamente, ainda mais porque segundo várias testemunhas o rapaz era tranquilo e alegre, não dava sinais de desequilíbrio e além disto estava prestes a se demitir da Guarda Suíça e voltar para sua terra natal.
A carta que Tornay teria pedido que um amigo entregasse a sua família, cuja cópia está nas mãos do juiz vaticano Gian Luigi Marrone e que poderá desvendar o mistério, ainda não chegou às maos da mãe e das irmãs que hoje não estarão na cerimônia fúnebre do soldado.
‘‘Penso que o Vaticano não nos dirá toda a verdade’’, afirmou a irmã, Melinda Tornay. ‘‘Credic era muito gentil e amava demais a vida para ter cometido este delito’’, comentou.

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