Entregue pela sublime Charlize Theron na noite de sábado, a Palma de Ouro do 57º Festival de Cannes foi para as mãos de Michael Moore, o homem que abertamente está desafiando George W. Bush. ''Fahrenheit 9/11'' é o primeiro documentário a levar o cobiçado troféu ''O Mundo do Silêncio'', de Jacques Cousteau, foi premiado em 1956 quando ainda não existia a Palma. O júri, presidido por Quentin Tarantino, teve alguns surtos de notável incompetência, se esquecendo de filmes consistentes como o japonês ''Ninguém Sabe'' (reconhecido com um absurdo prêmio de melhor ator para o garoto Yagira Yuya), o bósnio ''A Vida é Um Milagre'' e ''Diários de Motocicleta'', do brasileiro Walter Salles. Premiou equívocos, como o francês ''Exilados'' (direção) e o tailandês ''Doença Tropical'' (Prêmio do Júri) mas acabou por compensar a incorreção cinematográfica com uma corajosa declaração política que já repercute mundo afora. Com a Palma, a distribuição de ''Fahrenheit 9/11'' no mercado americano, que andou ameaçada, deve ganhar autonomia.
Quando recebeu o premio, encerrando uma cerimônia mais longa que de costume e com diversas mensagens que pareciam proféticas quanto à identidade do vencedor, um extasiado Michael Moore não hesitou, dirigindo-se a um emocionado Tarantino: ''Isto que vocês fizeram vai permitir que o povo americano veja meu filme. Há muita gente que deseja conhecer a verdade. Um grande presidente republicano que declarou uma vez: 'se dissermos a verdade ao povo, a República será salva'. Este homem era Abraham Lincoln''.
Moore dedicou o prêmio à filha de 22 anos, Nathalie Rose, a todos os filhos americanos que estão no Iraque e a todos os que sofrem no mundo por causa dos Estados Unidos. E concluiu: ''Creio que as coisas vão começar a mudar. Vocês trazem uma esperança ao mundo. Espero que aqueles que tenham perdido a vida no Iraque não tenham morrido em vão''.
Objetivamente: não foi uma grande obra de cinema, mesmo que Tarantino tenha dito no ouvido de Moore (e Moore ''entregou'' Tarantino logo após) que era um prêmio pelo cinema, e não pela política. Mas de qualquer maneira, foi preciso coragem para consagrar um filme abertamente militante, ainda mais assinado por um populista assumido como Moore. Conversando com os jornalistas na coletiva, Moore reafirmou sua condição de provocador, embora naquele momento temperado por um misto de emoção e gratidão. Contestou que a Palma de Ouro seja ''um prêmio dos franceses, com vai dizer certa imprensa americana ( o canal Fox News, cita nominalmente)''. Ele fez questão de lembrar que no júri havia quatro americanos, apenas um francês, um finlandês, um belga, um chinês e uma escocesa, ''Espero que os jornalistas americanos aqui presentes reportem o que de fato aconteceu esta noite''.
Moore dedicou boa parte da entrevista a enaltecer os franceses, falando da participação desde a Guerra da Independência à doação da estátua de Liberdade. ''Ano passado não só os franceses, mas alemães, canadenses, irlandeses e muitos outros disseram que estávamos no caminho errado na questão do Iraque, e foram maltratados pela mídia''. Alguém pergunta: ''Fahrenheit 9/11'' poderia ser um filme de ficção?'' Moore não perde a chance e diz que sim, por que não? ''E eu poderia usar o mesmo elenco do meu documentário, a quem agradeço pelas grandes atuações, Bush, Rumsfeld, Condoleeza''. Uma última questão: ''O que Bush vai achar desse prêmio?'' Michael Moore dá uma boa risada e responde: ''Meu Deus, ele nem sabe o que é isso, (apontando para a Palma, a seu lado, e em seguida olhando o relógio). Que horas são agora nos Estados Undidos, duas, três da manhã? Provavelmente ele não está nem na Casa Branca, deve estar em Camp David, como sempre''.

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