Mesmo para especialistas em política internacional é arriscado tentar uma explicação resumida. Foi na província de Kosovo, centro de seu reino medieval, que os sérvios sofreram uma derrota (lutaram até a morte do último homem) importante diante dos turcos em 1389. O Império Otomano, quando atingiu seu apogeu no século XVI, com Suleimão II, o Magnífíco (1520-1566), englobava Anatólia, Armênia, Geórgia, Azerbaidjão, Curdistão, Mesopotâmia, Hedjaz, Egito, Argélia, Tunísia, Grécia, Transilvânia, Hungria, Criméia além de toda a Península Balcânica. Denúncias de violência à parte, a administração otomana respeitava a língua, religião e tradição dos conquistados. Chefes locais respondiam diretamente ao rei, representante do sultão.
Em 1690, após uma revolta fracassada, os sérvios de Kosovo migraram rumo ao norte, abrindo espaço para ocupação dos albaneses, convertidos ao islamismo. Somente em 1873 a Sérvia e Montenegro conseguiram derrotar os turcos, mas Kosovo ainda continuou sob domínio do Império Otomano. Iniciaram-se os conflitos entre sérvios e albaneses, uma ferida que nunca se cicatrizou.
No início do século XX, em contrapartida ao imperialismo da Grã-Bretanha, da França e dos Impérios Austro-Húngaro e Otomano, surgiu o pan-eslavismo e o plano de criação da Grande Sérvia. Com a Guerra dos Balcãs, a península se livrou de vez dos otomoanos. Os sérvios recuperaram Kosovo, mas a maioria da população continuou sendo de origem albanesa.
Em 1914, a Bósnia havia sido anexada recentemente ao reino da Áustria-Hungria quando um rebelde sérvio da região matou o herdeiro do trono austro-húngaro em atentado em Sarajevo. Foi o estopim para a Primeira Guerra Mundial.
Ao final do grande conflito, os impérios Alemão e Austro-Húngaro deixaram de existir. Países como a Polônia, Tchecoslováquia e Hungria tornaram-se independentes. Da união da Sérvia e Montenegro, em 1918, nasceria a Iugoslávia, que incluiria ainda a Croácia, a Eslovênia e a Bósnia-Herzegóvina (três países que fizeram parte do Império Austro-Húngaro).
Durante a Segunda Guerra, Kosovo foi incorporada à Albânia. A Iugoslávia, invadida pela dobradinha Alemanha/Itália em 1941, tinha problemas demais, mas em 1945, novamente libertada e presidida pelo marechal comunista Josip Broz Tito, venceu a resistência albanesa e retomou Kosovo. A Iugoslávia alinharia-se de certa forma com a União Soviética, numa relação nem sempre cordial. Com a morte de Tito (1980) e o declínio do comunismo, a violência separatista/nacionalista explodiria nos Bálcãs.
A pobre província de Kosovo (10.887 quilômetros quadrados; 1,9 milhão de habitantes em 1991, 90 % de ‘‘albaneses étnicos’’) foi a primeira a se rebelar, tentando sem sucesso ser elevada à condição de república. De qualquer maneira, nos anos 80, um governo baseado em uma espécie de rodízio entre representantes das repúblicas e províncias sustentou a unidade iugoslava. Mas seria realmente difícil manter sob a mesma bandeira países com cinco línguas, três religiões e muitos rancores.
Para complicar, Slobodan Milosevic, ditador da Iugolsávia, decidiu acabar com a autonomia de Kosovo. Enquanto isso, ‘‘sérvios étnicos’’ são expulsos da Bósnia e da Croácia. Após três anos e meio de guerra, a Bósnia-Herzegóvina consegue sua independência em 1995, seguindo os passos da Eslovênia e Croácia. Apesar das derrotas, Milosevic resistiu no poder. Agora ele parece disposto a promover uma ‘‘limpeza étnica’’ em Kosovo - exterminando ou expulsando os kosovares de origem albanesa - provavelmente para instalar na região refugiados sérvios da Croácia e da Bósnia. Atrocidades endoçando atrocidades num círculo de horror.
A paz em Kosovo foi discutida na convenção de Rambouillet, na França. Não houve acordo. No dia 24 de março, a OTAN começou a bombardear a Iugoslávia, mesmo sem aprovação da ONU.

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