Uma guerrilha em contínua evolução
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de julho de 2004
Michel Sailhan<br>France Presse 
Bagdá - Os recentes seqüestros, atentados e assassinatos no Iraque dão a imagem de uma guerrilha plural e em constante evolução, caracterizada pelo surgimento de novos grupos incentivados pelo êxito do caso do refém filipino, argumentaram analistas.
Há várias resistências e inclusive a que se chama de resistência nacional (ex-militares ou baathistas) está dividida em vários grupos, assinala Wamid Omar Nazmi, professor de Ciências Políticas da Universidade de Bagdá.
Muitas pessoas eram obrigadas a se filiar ao Partido Baath (do presidente deposto Saddam Hussein) e depois se tornaram islamitas, outras se classificam de patriotas, disse à AFP Nazmi, para explicar a complexidade dos grupos iraquianos.
Numerosos atentados são dirigidos contra as forças americanas ou as delegacias locais, com a evidente intenção de dissuadir os iraquianos de colaborar com os ocupantes, mas outras são ilegíveis, a menos que se trate de erros, destacam os analistas.
É como o disparo de um projétil que matou duas pessoas quarta-feira no hospital Adnan Jairala de Bagdá, que indignou o pessoal, ou do atentado com carro-bomba, sem objetivo evidente, que deixou três mortos no mesmo dia em Bagdá.
Por outra parte, embora os seqüestros de estrangeiros cujos países participam na coalizão pretendam obrigá-los a partir do Iraque, a finalidade do rapto anunciado na quarta-feira, de sete pessoas procedentes de países que, não têm tropas no Iraque (Quênia, Índia, Egito) é menos clara.
Os seqüestradores, que dizem pertencer a um grupo chamado As Bandeiras Negras, exigem a retirada da empresa kuwaitiana que emprega esses sete caminhoneiros.
Entretanto, como assinalam Nazmi e outro analista, Hasni Abidi, também se menciona a implicação de máfias associadas ou não à guerrilha, cuja contribuição para o caos só pode servir aos partidários da desordem.
O grupo As Bandeiras Negras é desconhecido, assim como Os Leões de Alá, que na sexta-feira seqüestraram um diplomata egípcio, Mohamed Mamdu Qotb.
O analista egípcio Dia Rashuan, especialista nos movimentos islamitas, afirma que atualmente se assiste a um fenômeno de imitação e multiplicação dos grupos rebeldes, segundo ele amplificado pelo êxito dos seqüestradores no caso do refém filipino.
Um caminhoneiro filipino seqüestrado foi libertado na terça-feira em Bagdá, depois que o governo de seu país anunciou que cedia às exigências de seus captores e que ordenava a partida antecipada de seu contingente no Iraque.
Esta decisão irritou profundamente os Estados Unidos.
Há dezenas de grupos e de movimentos, de todas as cores políticas, nacionalistas, baathistas, islamitas, sunitas, xiitas e é impossível falar de uma estratégia única, embora geralmente os alvos sejam comuns, acrescenta Rashuan.
Abidi compartilha esta opinião, acrescentando que a guerrilha é plural e inclusive alguns grupos se enfrentam.
Não se deve esquecer que o objetivo do vizinho iraniano e de suas ligações com o Iraque (alguns grupos e movimentos xiitas) não é obrigatoriamente o mesmo do Baath, inimigo perpétuo dos iranianos, acrescenta este analista de origem argelina.
Os partidos e os grupos armados estão em plena reestruturação, já que serão os intelocutores cruciais do Iraque futuro, afirma Abidi, diretor em Genebra do Centro de Estudos e Investigações sobre o Mundo Árabe e Mediterrâneo.
Os eleitores iraquianos se lembrarão dos patriotas e dos traidores, concluiu.


