Um plano para a invasão
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terça-feira, 27 de abril de 1999
Ralph Peters, da Newsweek 
Restam poucas dúvidas de que tropas da Otan podem tomar Kosovo numa guerra curta, fulminante. O desbaratamento das forças sérvias exigirá 100 mil militares. A vitória não sairá de graça. Centenas de soldados da Otan vão morrer; os sérvios mortos em combate podem ficar entre 10 mil e 30 mil. Eis como uma invasão ocorreria:
Fase 1 - O 18º Corpo Aerotransportado do Exército, reforçado com poder de fogo adicional, tanques e fuzileiros navais, ataca a partir da Albânia. Um corpo misto da Otan entra em Kosovo a partir da Macedônia. Plano: penetrar em Kosovo a toda velocidade em duas frentes, fechando-as como uma pinça para apanhar e destruir forças sérvias. Penetrar nas defesas fronteiriças sérvias é um dos mais duros desafios. O terreno montanhoso na fronteira da Albânia com Kosovo é região para infantaria. Como a Otan precisa de dois a três meses para reunir uma força de invasão, os sérvios terão tempo para entrincheirar-se. As estradas são poucas e ruins, razão pela qual nossas forças blindadas vão movimentar-se lentamente, e o reabastecimento é um problema. Pior ainda, as pontes da zona rural não aguentarão os pesados tanques do Exército dos EUA.
Na ofensiva inicial, forças americanas manobram protegidas por ataques aéreos e de artilharia, ajudadas por forças de operações especiais e por kosovares em atividade por trás das linhas sérvias. Em vez de atacar as defesas preparadas, helicópteros desembarcam soldados a intervalos, atrás das posições sérvias. Com os sérvios imobilizados e forçados a combater em direções múltiplas, unidades convencionais da infantaria e de blindados rompem campos minados e abrem corredores para o ataque. Bombardeios aéreos e ataques terrestres devastam os pontos fortes do inimigo. A resistência desagrega-se.
Fase 2 - Uma vez dentro das defesas de fronteira, unidades de combate locomovem-se rapidamente usando a mobilidade dos helicópteros e fazendo com que o relevo ruim se volte contra os sérvios. Nossas forças cuidam para não ser retardadas pela resistência local, vasculhando focos de defesa sempre que possível e isolando-os, mas duros combates ocorrem onde colônias ou passagens entre montanhas bloqueiam as estradas. Forças terrestres inutilizam defesas aéreas sérvias, dando liberdade de ação aos pilotos. Por sua vez, o ataque aéreo abre as vias para maiores avanços por terra. Os sérvios começam a entrar em pânico. Aparecem bandeiras brancas e filas de sérvios que se tornam prisioneiros de guerra.
De casa em casa - O combate mais brutal ocorre nas aldeias e cidades onde tenazes forças sérvias estão entrincheiradas - unidades cujas mãos estão manchadas com a maior parte do sangue inocente. O combate de casa em casa não é necessário numa cidade inteira, mas é preciso eliminar os principais bolsões de resistência. Isso requer soldados de infantaria com fuzis, baionetas e granadas que atravessam portas, janelas e paredes estouradas. Por sorte, os fuzileiros navais treinam exatamente para esse tipo de ataque. Ainda assim, as forças aliadas sofrem o grosso de suas baixas em combates urbanos - infligidas por unidades inimigas e pelotões de paramilitares valentões, mas também por minas, ataques terroristas e franco-atiradores. A guerra yuppie que começou com as esperanças de um conflito sem sangue baseado na alta tecnologia termina em tiroteios dentro de porões escuros e combates corpo a corpo.
A campanha em Kosovo dura de 30 a 60 dias. Uns poucos elementos recalcitrantes desenvolvem uma campanha de terror até que sejam caçados. Temos as tropas e a tecnologia necessárias para derrotar os sérvios. O que falta é a vontade política de fazê-lo do modo certo - não uma guerra sem muito ânimo, como os bombardeios aéreos. Uma operação terrestre tímida é sinônimo de baixas e é um convite ao fracasso.
Ralph Peters, oficial reformado do Exército dos EUA, é autor de Fighting for the Future: Will America Triumph? e do romance Traitor


