Um papa brasileiro?
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de março de 2013
Bianca Fraccalvieri<br>Especial para a FOLHA 
Cidade do Vaticano Com o Vaticano encravado no coração do território italiano, muitas expressões linguísticas recebem influência "eclesiástica". Uma delas é "morto un papa, se ne fa un altro", que numa tradução livre seria "um vale o outro". O papa não morreu, mas a sucessão é iminente. A definição de 12 de março como data de início do conclave não aplaca por parte da mídia as especulações sobre os candidatos ao pontificado os chamados "papáveis". São 115 votantes.
Da Europa à Ásia, da América do Norte à América do Sul, há candidatos para todos os gostos, inclusive do Brasil.
Não é a primeira vez que um nome brasileiro é citado para ocupar a Sé de Pedro. O último, em ordem cronológica, foi o arcebispo emérito de São Paulo, d. Cláudio Hummes, no conclave de oito anos atrás, que elegeu Joseph Ratzinger. Hoje, Hummes é apontado como "articulador" que facilita a comunicação entre os cardeais. Mas é também de São Paulo a "esperança" brasileira neste conclave. O arcebispo da capital paulista, d. Odilo Scherer, é o mais cotado entre os brasileiros. Gaúcho, o cardeal passou pelo Paraná, estudando em Toledo, Campo Largo e Curitiba.
O que impressiona desta vez são a força e a insistência em torno de seu nome, fato sem precedentes na história da Igreja no Brasil. Scherer consta em quase todas as listas preparadas pelos "vaticanistas" especialistas em Vaticano. Segundo eles, as vantagens dele são o fato de ser latino-americano, mas de origem europeia (Alemanha), falar diversas línguas e, sobretudo, ser um homem de confiança, pois é membro de um seleto grupo de cinco cardeais que vigiam o polêmico Instituto de Obras Religiosas (IOR), conhecido como Banco do Vaticano.
Mas Scherer não é o único papável brasileiro. Outro nome citado, com frequência bem menor, é o de d. João Braz de Aviz. Catarinense, foi bispo de Ponta Grossa e arcebispo de Maringá antes de chegar a Brasília de onde foi "promovido" para ocupar, no Vaticano, o cargo de Prefeito da Congregação dos Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, posto que ocupou até a renúncia de Bento 16. Deixou o cargo porque praticamente todos os membros da Cúria romana, com poucas exceções, devem "entregar" seus cargos no período da Sé vacante.
Outra figura familiar aos paranaenses é d. Geraldo Majella Agnelo, que foi bispo de Toledo e arcebispo de Londrina de 1978 a 1991, quando foi transferido para o Vaticano para assumir o secretariado da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Foi durante esse período, e até 1999, que d. Geraldo conheceu e conviveu com o então cardeal Joseph Ratzinger.
Em entrevista recente à Rádio Vaticano, Agnelo relatou sua despedida de Bento 16, no último dia do pontificado ocasião em que o próprio papa emérito se lembrou de um jantar organizado pelo brasileiro com sacerdotes em sua casa romana.
"O cardeal Ratzinger trouxe uma garrafa de licor e ficou conversando conosco. Os padres gostaram demais, porque ele deixou todos muito à vontade, falando de problemas da Igreja. Ele se sobressaía há muito tempo. E já naquela época eu pensava comigo: pode ser que este seja aquele que um dia chegará lá."
O quinto cardeal brasileiro participante do conclave é o arcebispo de Aparecida (SP) e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Raymundo Damasceno Assis. Diferentemente de todos os seus colegas brasileiros, ele nunca ocupou um cargo na Cúria, mas nem por isso é um "desconhecido" entre os membros do Colégio Cardinalício, já que foi o Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam).
Assis, aliás, tem como braço direito um paranaense: monsenhor Antonio Luiz Catelan Ferreira. Natural de Cidade Gaúcha, da diocese de Umuarama, Ferreira tem com Londrina "uma relação de coração". Atualmente, é assessor da Comissão para a Doutrina da Fé da CNBB e está em Roma secretariando o cardeal, mediando entrevistas, contatos e revisando textos.
Hóspede junto aos outros cardeais brasileiros (com exceção de d. João, que já residia em Roma) no Colégio Pio Brasileiro, Ferreira tem uma visão privilegiada de como eles estão vivendo esta experiência. "Os cardeais brasileiros estão vivendo este momento verdadeiramente com espírito de discernimento, desejando ter o tempo para se encontrar com seus colegas para conhecê-los, para trocar ideias. Este é o espírito: discernimento para uma boa escolha."


