Um autêntico presidente
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domingo, 22 de janeiro de 2006
Fabiano Maisonnave<br> Folhapress 
La Paz, Bolívia - Respaldado por um apoio popular histórico, Evo Morales assume hoje, em La Paz, a Presidência da Bolívia com uma grande festa popular e sob os olhos atentos da comunidade internacional, representada por 11 chefes de Estado e cerca de 1.200 jornalistas estrangeiros.
Mais de 200 mil pessoas são esperadas nas ruas de La Paz para a posse. A expectativa é que ao menos metade dos simpatizantes venha do interior do país. Serão colocadas nas ruas da capital 1.200 bandeiras - metade da Bolívia e metade a Whipala, a bandeira aimara, etnia à qual Morales pertence.
Todos esses números têm sido considerado recordes pelo governo e pela imprensa bolivianos. Segundo a Chancelaria, por exemplo, antes de Morales, as posses presidenciais só haviam atraído, no máximo, cinco chefes de Estado.
Morales conquistou a Presidência ainda no primeiro turno, em 18 de dezembro passado, quando conseguiu 53,7% dos votos válidos. Foi o primeiro candidato a ganhar sem a necessidade de um segundo turno desde a redemocratização, no início dos anos 1980. O mandato presidencial na Bolívia é de cinco anos, sem reeleição - como têm defendido, aliás, vários setores políticos brasileiros.
A cerimônia de juramento e posse está marcada para ter início às 13h30 locais. No final da tarde, às 16h50, Morales deve deixar a área do Palácio de Governo e percorrer a pé as poucas quadras até a praça San Francisco, o local histórico de concentrações populares. Diante da multidão, Morales fará a cerimônia de compromisso com a população. Amanhã, às 9h30, Morales dará posse ao seu gabinete - nenhum ministro, no entanto, havia sido anunciado até ontem. Projetado para a política como sindicalista dos plantadores de coca, Evo, como os bolivianos se referem a ele, é o primeiro indígena eleito para o cargo máximo do país. Internamente, a sua vitória faz parte de um longo processo de conquista de espaço político da população indígena boliviana, que representa cerca de 60% da população e a quase totalidade dos mais pobres do país.
No exterior, o líder do MAS (Movimento ao Socialismo) é visto também como parte da onda de esquerda na América Latina, que inclui os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Ricardo Lagos (Chile), Néstor Kirchner (Argentina), Hugo Chávez (Venezuela) e Tabaré Vázquez (Uruguai) - com a exceção deste, todos confirmaram presença na posse.
Lagos presente - Mesmo com a participação sempre histriônica de Chávez e a poucas semanas de deixar a Presidência, Lagos é quem tem mais causado expectativa entre os bolivianos, que já considera sua visita como histórica. Isso porque os dois países não têm relações diplomáticas desde 1979. O motivo é ainda mais antigo e data do final do século 19, quando a Bolívia perdeu o acesso ao mar para o Chile na Guerra do Pacífico.
Morales, que tomou a iniciativa de convidar Lagos, pediu, em entrevista coletiva na quinta-feira, que os jornalistas bolivianos ''tratassem bem'' o chileno. Os dois devem ter um encontro reservado de cerca de 30 minutos, segundo a imprensa local. Morales também conversará com o representante do governo norte-americano, o subsecretário de Estado dos EUA para a América Latina, Tom Shannon.
Já o presidente Lula deve ter uma presença discreta. Sua chegada está prevista para as 10h30, com o retorno marcado para as 16h30. Não está previsto nenhum encontro bilateral. A grande ausência será a do cubano Fidel Castro, que cancelou sua participação ontem. Morales é admirador confesso de Fidel - sua primeira visita após a vitória eleitoral foi à ilha caribenha.


