UE descarta intervenção na Albânia
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de março de 1997
Reuter, de Apeldoorn, Holanda 
Os chanceleres dos 15 países da União Européia decidiram ontem não intervir militarmente na Albânia, apesar do cenário de caos nesse pequeno país europeu. Reunidos informalmente na cidade holandesa de Apeldoorn, os dirigentes europeus limitaram-se a determinar o envio, no início desta semana, de uma delegação de conselheiros militares, com a missão da dar apoio às autoridades locais na busca de formas para impedir que o país mergulhe definitivamente da desagregação política e social.
Qualquer decisão intervencionista está fora de questão, disse um diplomata alemão. A Alemanha, Grã-Bretanha e Suécia opõem-se energicamente ao envio de forças da Otan à Albânia, favorecida por alguns países europeus. Não podemos entrar em outra aventura, disse o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Klaus Kinkel, numa alusão à amarga experiência na ex-Iugoslávia. O governo albanês vem fazendo apelos desesperados em favor de uma intervenção militar da UE. Mas os chanceleres europeus insistem na tese de que a solução passa por um apoio amplo da Europa à reconstrução da Albânia e por uma solução política local.
As hesitações dos dirigentes europeus vêm causando duras críticas. Ontem, o presidente da República Checa, Vaclav Havel, afirmou que os dirigentes da UE e a Organização para Cooperação e Segurança na Europa (OCSE) esperaram demais para tomar providências. O papa João Paulo II preferiu fazer um apelo aos rebeldes para que deponham as armas e busquem o diálogo com o governo. Para o bem da Albânia, peço àqueles que empunharam armas para que desistam de sua atitude, uma vez que a violência destrutiva definitivamente não é a maneira de resolver os problemas sociais, disse o papa.
O primeiro-ministro da Itália, Romado Prodi, defendeu ontem a tese da UE, segundo a qual a solução da crise é um esforço decidido para reconstruir a Albânia. Os albaneses devem ficar em seu país, porque a Europa providenciará as condições materiais para que ele seja reconstruído, disse Prodi. Segundo o primeiro-ministro, a missão de conselheiros militares da União Européia vai tentar restaurar a ordem na Albânia, condição fundamental para que a reconstrução possa ser iniciada.
Os Estados Unidos manifestaram-se favoráveis à renúncia do presidente da Albânia, Sali Berisha, classificando a medida como indispensável para pôr fim à insurreição popular que se alastra pelo país, com a população fugindo em massa. A posição da Casa Branca - que coincide com a dos rebeldes albaneses - foi externada anteontem, em Viena, durante reunião de emergência da OCSE. Os EUA querem a partida de Berisha, afirmou um alto funcionário da OCSE, citando fontes não reveladas.
No encontro - que durou uma hora e meia - não se chegou a nenhuma decisão sobre a situação albanesa. Os membros da organização avaliaram detalhadamente o relatório do ex-chanceler austríaco Franz Vranitzky, que chefiou a missão exploratória da OCSE no Adriático. Ele se reuniu na manhã de sexta-feira com o primeiro-ministro albanês, Brashkim Fino, e com líderes rebeldes a bordo de um navio de guerra italiano ancorado nas proximidades do litoral albanês.
ENTENDA A CRISE
1 - A crise albanesa foi causada pela violenta reação da população contra o governo do presidente Sali Berisha, por causa do escândalo das empresas financeiras suspeitas que prometiam juros mirabolantes e acabaram ficando com as economias de centenas de milhares de cidadãos incautos.
2 - A revolta ganhou impulso militar e os rebeldes tomaram todo o sul do país e marcharam para Tirana, a capital.
3 - O resultado foi um cenário de caos total, com saques, choques armados e fuga em massa.


