Associated Press
De Izmit
Como nuvens de uma gigantesca pira funerária, uma fumaça negra subia ontem de uma grande refinaria de petróleo na Turquia, agora uma vítima do devastador terremoto que causou a morte até ontem à noite de quase 4 mil pessoas e provocou sérios reveses para a economia do país.
A incapacidade de controlar as chamas na refinaria de Tupras foi mais uma frustração na luta da Turquia contra o desastre, que ocorreu na densamente povoada região ocidental do país na terça-feira antes do amanhecer.
Na noite de ontem, o número oficial de mortos havia subido para 3.839, com 18.471 feridos. Mas muitas pessoas — talvez mais de 10 mil — continuavam desaparecidas, calculavam as autoridades.
Pelo segundo dia, pessoas imploravam a equipes de resgate para tentarem encontrar parentes e amigos entre montanhas de destroços onde antes existiam prédios de apartamentos, muitos deles mal construídos para servir a pobres que correram para as cidades quando o progresso econômico criou empregos nas últimas três décadas.
Não se sabia exatamente quantas pessoas ainda estavam sobre os destroços, mas aparentemente o número de mortos irá aumentar dramaticamente enquanto equipes de resgate turcas e estrangeiras trabalham lentamente, uma tarefa que deve durar dias.
Em Izmit, um dos locais mais devastados, autoridades tentavam isolar uma área de cinco quilômetros em volta da refinaria, cerca de 130 km a sudeste de Istambul. A espuma química lançada por aviões de combate ao fogo não conseguia conter as chamas.
Cortes de energia impediam que as equipes de resgate utilizassem equipamentos de bombeamento para sugar água do Mar de Marmara, localizado nas proximidades. O maior temor era o de que o fogo pudesse se espalhar por todo o campo de 30 tanques gigantes, causando assim um desastre ambiental. Nas proximidades havia outros riscos sérios: um depósito de fertilizantes com 8 mil toneladas de amônia que corriam risco de pegar fogo.
Barreiras foram criadas para evitar que o petróleo chegasse ao mar. ‘‘Se o fogo se espalhar... seria um novo desastre para Izmit’’, disse Memduh Oguz, governante da cidade industrial de 75 mil habitantes.
Mesmo com dezenas de nações enviando pessoal e ajuda adicional, algumas pessoas nas áreas mais pobres reclamam de não ter visto qualquer forma de ajuda organizada e tiveram que limpar os destroços por conta própria.
Ao anoitecer, a maioria das pessoas preferiu ficar ao ar livre — temendo que pudessem se intensificar centenas de abalos secundários.
O suprimento de alimentos começou a escassear em algumas áreas, aumentando o desespero. Uma multidão saqueou um comboio de caminhões com pães que entrava em Izmit.
‘‘Quando eles virão nos ajudar? Quando estivermos todos mortos?’’, gritava Zeyfettin Kus em frente de um prédio desmoronado em Izmit onde três vizinhos estavam soterrados. Ele havia parado de ouvir gritos de socorro.
O jornal ‘‘Radikal’’ criticou as autoridades numa grande manchete: ‘‘O resgate é puro fiasco’’.
Em meio a tanta calamidade e lágrimas, alguns momentos de alegria. Um motorista de táxi, Naci Yilmaz, disse ter ouvido um fraco choro sob escombros na cidade de Adapazari, cerca de 150 km ao sul de Istambul. Ele cavou por quatro horas até alcançar uma menina de 12 dias cujos pais haviam morrido. O bebê, que tinha apenas um pequeno corte na cabeça, foi entregue à avó.
O pior terremoto da história da Turquia matou cerca de 33 mil pessoas na província oriental de Erzincan em 1939.

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