Tumultos na greve geral equatoriana
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quarta-feira, 10 de março de 1999
Reuters 
Milhares de policiais militares atiraram ontem bombas de gás lacrimogêneo para dispersar centenas de trabalhadores que protestavam contra o presidente equatoriano, Jamil Mahuad, nas ruas de Quito. O governo, que já havia determinado feriado bancário desde segunda-feira até hoje, decretou também estado de emergência para evitar o agravamento dos conflitos de rua.
Em todas as cidades costeiras do país, na selva amazônica e nas montanhas, soldados foram instruídos a tomar as estradas e as pontes para conter os manifestantes. Apesar do deslocamento de 3 mil soldados e 12 mil policiais em todo o país, algumas rodovias foram fechadas pelas populações indígenas que aderiram à greve convocada por entidades de esquerda e sindicatos de trabalhadores.
Os transportes públicos estão paralisados e a polícia foi convocada para vigiar as instalações das empresas petrolíferas a fim de assegurar a manutenção dos serviços essenciais.
Nos principais centros urbanos do país, o clima era de confronto, com pelo menos um ferido e 22 prisões, enquanto as demais cidades do país viviam um dia de verdadeiro feriado, já que também os bancos estão fechados.
Os protestos foram organizados em resposta à depreciação dos salários e ao aumento de preços dos combustíveis, das tarifas de eletricidade e à cobrança de novos impostos, além dos cortes nos gastos públicos. Em setembro passado Mahuad eliminou os subsídios para o gás doméstico e eletricidade, gerando altas de até 400% nesses serviços. Em janeiro, suspendeu o imposto de renda e criou um imposto de 1% sobre o movimento de capitais. Por medida de precaução, os trabalhadores reduziram a produção da refinaria Esmeraldas, a maior do país, em 25% e suspenderam as entregas de combustíveis.
Em meio à greve geral, prosseguiu ontem o debate sobre a dolarização da economia equatoriana e a conversão da moeda local, o sucre, ao dólar, a exemplo do que fez a Argentina. Para o ex-diretor do Banco Central e banqueiro Abelardo Pachano, a conversibilidade indica a incapacidade de um país autogovernar-se e tem um custo social muito mais alto que qualquer outra iniciativa.
A falta de reservas em moeda estrangeira e o crônico déficit fiscal também são considerados pelos economistas como obstáculos ao êxito de um eventual programa de conversibilidade. Entre janeiro e fevereiro, o sucre desvalorizou-se 37% em relação ao dólar, aprofundando a queda de 54,13% verificada no ano passado. A própria ministra das Finanças, Ana Maria Armijos, admitiu ontem que adotar a conversibilidade sem sanear as contas fiscais não resolveria o problema.


