Trump inverteu lógica da Casa Branca e dobra aposta para repetir virada de 2016
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quinta-feira, 27 de agosto de 2020
Marina Dias/Folhapress 
Washington - Washington - Donald Trump atropelou previsões e chegou à Casa Branca como o presidente mais controverso da história dos EUA. Após uma campanha agressiva e preconceituosa contra Hillary Clinton, houve quem acreditasse que o peso do cargo mais alto do Executivo modularia seu estilo e personalidade, mas foi Trump quem redesenhou a Presidência americana.
O republicano inverteu a lógica da Casa Branca e agora se mostra disposto a dobrar a aposta para tentar repetir a virada de 2016 e conquistar a reeleição. Trump usou o governo a serviço de seus interesses públicos e privados, com apoio de base que, em troca, demanda a manutenção dos valores conservadores do país.
A ideia de que os democratas mergulharão os EUA no socialismo foi o grande alicerce do presidente para manter essa dinâmica e, como se viu na convenção republicana nesta semana, será mais uma vez seu principal argumento para garantir o segundo mandato. Desde a abertura, na segunda (24), o evento que oficializou Trump candidato tem sido a alegoria perfeita do cruzamento da linha entre governo e campanha, que deveria ter seu ápice nesta quinta (27), quando o presidente fez o discurso para formalizar sua candidatura de dentro da Casa Branca. Devido à pandemia que já matou quase 180 mil pessoas no país, parte da convenção tem sido feita remotamente, e os discursos são transmitidos por vídeo.
Aos 74, o republicano precisa renovar a energia dos que votaram nele em 2016. E mais: tenta ao menos amedrontar eleitores moderados que o apoiaram há quatro anos, mas, desta vez, cansados de sua retórica belicosa, têm flertado com o democrata Joe Biden.O discurso desta quinta serviu para Trump cristalizar a mensagem de que o ex-vice de Barack Obama é um radical de esquerda que vai assolar o país em um caos sem precedentes –Biden, por sua vez, é um líder do establishment de seu partido e tem conduzido uma campanha centrista.
NARRATIVA
A ideia de que os democratas são anarquistas que vão abolir os subúrbios e prejudicar a classe trabalhadora é mais um elemento que deve ser repetido por Trump e remete aos ataques à oposição durante os protestos antirracismo e contra a violência policial, apoiados por Biden. Os atos, porém, eram quase sempre pacíficos, com casos pontuais de violência e depredação.
Do lado da narrativa, Trump aposta que a ofensiva que deu certo contra Hillary pode funcionar contra Biden, enquanto no campo da mobilização, acha que é possível fazer com que mais gente decida votar nele em novembro, principalmente eleitores da classe trabalhadora das áreas rurais.
Em desvantagem nas pesquisas nacionais e na maior parte dos estados-chave, o presidente sabe que pode perder no voto popular, como há quatro anos, e faz sua investida sobre grupos específicos - pessoas brancas e conservadoras - em estados que podem garantir sua vitória no Colégio Eleitoral, sistema de voto indireto que escolhe o chefe da Casa Branca.
De acordo com analistas, a sensação é que o país vive um momento parecido com agosto de 2016, quando as pesquisas também indicavam Trump atrás de sua adversária e grande parte da imprensa americana não acreditava que o republicano pudesse vencer.
Naquele ano, porém, havia outros fatores, como o cansaço de parte dos eleitores com a política tradicional e Trump se apresentando como um outsider. Apesar disso, o presidente parece acreditar que é possível repetir a receita. Nas três primeiras noites da convenção, em meio a um leque de oradores que defendeu seu legado ignorando ou minimizando a pandemia, o racismo e a crise econômica, uma de suas filhas, Tiffany, ficou responsável pela máquina do tempo.
Em discurso na terça, ela reforçou a ideia de que a eleição deste ano é "um luta da liberdade contra a repressão" e disse que seu pai é o único capaz de desafiar o establishment americano.


