Tropas iniciam desembarque em Timor
Seis aviões Hercules transportam de Darwin, Austrália, à capital timorense soldados australianos, britânicos e neozelandeses
SOB TENSÃOSoldado indonésio vigia rua abandonada em Dili, enquanto tropas da ONU não chegam. No detalhe, família tenta deixar a capital timorenseMilícia pró-Indonésia
ameaça ‘‘combater
até a última
gota de sangue’’Associated Press,
De Nova York
O secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, advertiu ontem as milícias pró-Jacarta a não enfrentar a força multinacional de paz que começa a desembarcar em Timor Leste. O primeiro contingente da força de paz, cerca de 2,5 mil soldados, tinha chegada prevista para hoje às 6h30 ao Aeroporto Komoro de Dili (20h30 de ontem em Brasília), mas alguns deles serão trasladados a Baucau, a segunda principal cidade do território.
O general australiano Peter Cosgrove, que comandará a força de paz, visitou ontem brevemente Timor Leste, percorreu suas ruas devastadas, e prometeu aos timorenses uma nova vida, ‘‘livre de ameaças’’.
Após uma reunião com altos militares, o general australiano declarou que o Exército indonésio demonstrou ‘‘espírito de cooperação’’.
O chefe da principal milícia timorense, Eurico Guterres, disse ontem que seus homens não serão expulsos de Timor Leste, acrescentando que o território deverá ser dividido em dois e em uma das partes ficarão os que querem permanecer com a Indonésia.
Por sua vez, Filomeno de Jesus Hornai, vice-chefe de uma das milícias, lançou advertência ainda mais agressiva: ‘‘Comeremos o coração dos que vierem a Timor’’. Segundo ele, suas forças estão preparadas ‘‘para combater até a última gota de sangue’’.
Em entrevista à CNN, Annan disse acreditar que a força de paz ‘‘tem a firmeza suficiente, a estrutura adequada e a capacidade de defender seu mandato e a si mesma’’. Ele acrescentou que a força de intervenção ‘‘está preparada para retaliar se for atacada.’’
Annan também declarou que o Exército indonésio, responsabilizado pela violência desatada em Timor Leste após o anúncio do resultado do plebiscito do dia 30 favorável à independência do território, foi instruído a controlar as milícias.
‘‘O quão longe foi o envolvimento dos militares eu não sei. Mas é claro que os que estavam lá colaboraram (com as milícias)’’, afirmou.
O general Kiki Syahnakri, comandante das forças indonésias em Timor Leste, disse que pretende entregar em poucos dias o controle do território à força da ONU, talvez antes de sábado.
Seis aviões militares Hercules realizarão 37 vôos de Darwin, Austrália, à capital timorense para transportar o primeiro contingente, formado por soldados australianos, britânicos e neozelandeses.
As tropas francesa e italiana chegaram ontem a Darwin para unir-se aos efetivos portugueses, tailandeses e filipinos. Soldados americanos da base japonesa de Okinawa também se encontram no norte da Austrália. Os Estados Unidos, além de colaborar nas áreas de logística, comunicações e transporte, decidiram enviar 200 de seus militares.
O líder da resistência timorense, Xanana Gusmão, chegou ontem à Austrália. Ele foi libertado pelo governo indonésio no começo do mês após sete anos de prisão e se havia abrigado na embaixada britânica em Jacarta. Segundo membros da resistência, Xanana pretende permanecer no exílio até que a segurança seja restabelecida em Timor Leste e formar um governo provisório.
Ainda ontem, a chefe do Alto Comissariado da ONU para Refugiados, Sadako Ogata, visitou os campos de refugiados em Timor Oeste para ver com os próprios olhos a situação de miséria em que vivem os timorenses obrigados a deixar suas casas por causa da violência. A Organização da ONU para a Alimentação (FAO) estima que mais de sete mil timorenses morreram e cerca de 400 mil estejam desabrigados.

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