‘Ex-falcão’ convertido em partidário da paz, o protestante David Trimble, co-laureado do Prêmio Nobel da Paz, conseguiu convencer a maioria dos protestantes, durante longo tempo apegados aos seus privilégios, a compartilhar com os católicos o poder, em uma Irlanda do Norte reconciliada.
Além do Nobel, este advogado de personalidade complexa e itinerário tortuoso, que acaba de completar 54 anos, ganhou o privilégio de dirigir o primeiro governo semi-autônomo da Irlanda do Norte criado pelos acordos de paz de 10 de abril. Mas também tem que enfrentar os ataques dos extremistas de sua comunidade, que recusam o acordo de paz, falam em ‘‘traição’’ e asseguram que ‘‘seus dias estão contados’’.
Em setembro passado, David Trimble teve que sair com uma forte escolta, em meio a vaias, de uma reunião da Ordem Orange, a confraria protestante mais importante da província. Apesar de ser eminente membro dela, a Ordem votou uma moção de censura ao acordo de paz. Os opositores ao acordo de paz compreendem ainda menos a posição de David Trimble quando esteve durante muito tempo com eles no combate pela preservação dos privilégios dos protestantes.
Em 1974, esteve junto aos protestantes que eram contra o acordo de Sunningdale, primeiro esboço de solução política da questão norte-irlandesa, e que conseguiram fazer fracassar. Em 1985, se opôs ao acordo anglo-irlandês, nova tentativa fracassada. Quando foi eleito em 1995 à frente do partido unionista UUP, os partidários da paz temeram as consequências da liderança desse ‘‘falcão’’ membro da linha dura do Ulster Unionist Party. Ele contradisse todos os prognósticos, tomando prudentemente o caminho da mesa de negociações com um pragmatismo e um sentido político que ninguém conhecia.

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