Em decisão aplaudida pelos EUA e aliados e condenada na Rússia e China, a cúpula da Iugoslávia (Sérvia e Montenegro), liderada por Slobodan Milosevic, foi indiciada oficialmente ontem por crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) - criado pela ONU em 1993 para julgar os responsáveis por delitos cometidos na guerra civil da ex-Iugoslávia.
Milosevic, o ministro do Interior sérvio, Vlajko Stojilijkoviv, o chefe das Forças Armadas iugoslavas, general Dragoljub Ojdanic, o vice-primeiro-ministro sérvio, Nikola Saino, e o presidente sérvio, Milan Milutinovic, foram acusados pela promotora canadense do TPI, Louise Arbour, de ‘‘ordenar, planejar, instigar, executar e apoiar as brutais violações dos direitos cometidas em Kosovo’’, que culminaram na deportação de 740 mil albaneses étnicos da província sérvia e no assassinato de 340 pessoas.
France PresseVlajo Stojilijkoviv, ministro do InteriorA promotora expediu também ordem internacional de busca e captura contra os indiciados e enviou carta aos países membros da ONU, determinando o congelamento das contas bancárias deles ‘‘para evitar que se evadam da Justiça’’.
Milosevic reagiu com nota oficial, lida pelo ministro da Informação, Goran Matic. ‘‘É uma nova manobra dos agressores da Otan’’, disse Goran. ‘‘É a prova de que o tribunal não é instituição de Justiça, mas instrumento de execução das ordens emanadas de Washington e de Bruxelas.’’ Goran acrescentou que o TPI não tem jurisdição sobre a Iugoslávia. ‘‘O que existe em Kosovo não é uma guerra, mas uma luta contra um bando de terroristas separatistas.’’
O presidente americano, Bill Clinton, não escondeu a satisfação. Em telefonema ao colega francês, Jacques Chirac, aplaudiu o TPI. ‘‘Isso vai deixar claro para os sérvios quem é o responsável pelo conflito.’’ Chirac ressaltou: ‘‘Fica evidente agora que a moral e o direito estão do lado da Otan’’. O chanceler britânico, Robin Cook, disse que uma paz verdadeira em Kosovo não pode ser construída sobre a impunidade e a injustiça.
Em Moscou, o Kremlin condenou a decisão do tribunal, classificando-a de ‘‘política’’. Segundo o chanceler russo, Igor Ivanov, ela pode prejudicar seriamente as negociação diplomáticas em curso. A decisão levou o negociador russo Viktor Chernomyrdin a adiar de ontem para hoje sua viagem a Belgrado.
Milosevic é o primeiro-chefe de Estado no exercício do cargo a ser processado por uma corte internacional.
France PresseDragoljub Ojdanic, chefe das Forças ArmadasSegundo o jurista Alan Gerson, da Organização Internacional de Direito e do Conselho de Relações Internacionais, o TPI criou ‘‘um grande transtorno’’ para uma solução negociada da crise. Ele acha também que o indiciamento vai ‘‘estimular os falcões’’ que defendem a via militar, com ênfase para a invasão terrestre.
Os críticos e partidários de Milosevic na Iugoslávia deploraram da mesma maneira seu indiciamento pelo tribunal de crimes de guerra da Iugoslávia, mas algumas de suas vítimas fora da Sérvia receberam a decisão com satisfação.
‘‘Agora Milosevic está contra a parede e não há incentivo para que ele se comprometa’’, disse Vojin Dimitrijevic, diretor do Centro de Direitos Humanos de Belgrado.
Cidadãos iugoslavos em Belgrado rejeitaram o indiciamento como mais um erro de alvo da Organização do Tratado do Atlântico Norte. ‘‘Isto é como apagar fogo com gasolina’’, disse Andjelka Savic uma professora aposentada de 79 anos. ‘‘A Otan é burra mesmo.’’
Sanja Ilijin, uma dona de casa de 23 anos, acrescentou: ‘‘O que vão fazer agora? Prender todos nós? Questões como a de Kosovo deveriam ser discutidas aqui na Sérvia. Nós deveríamos decidir quem são os culpados’’.
Aliados de Milosevic em Montenegro disseram que o anúncio atende a desejos escusos da Otan. ‘‘Agora Milosevic é proclamado criminoso de guerra, mas não (Bill) Clinton, (Tony) Blair e outros líderes políticos da Otan que estão bombardeando nossas igrejas, monastérios e jardins de infância’’, disse Zoran Zizic, vice-presidente do Partido Socialista do Povo, aliado de Milosevic em Montenegro. Zizic disse que o tribunal ‘‘perdeu sua dignidade’’ porque a decisão ‘‘foi baseada na força, em aviões e mísseis Tomahawk, em vez de se basear na justiça’’.
Mas Sadri Godanci, um proeminente advogado de Pristina que hoje está entre os 250 mil albaneses étnicos refugiados na Macedônia, disse: ‘‘Prender Milosevic seria a maneira lógica de acabar com a guerra. Seria uma vergonha se ela acabasse de outro jeito. É evidente que ele é um criminoso de guerra, não apenas em Kosovo, mas na Bósnia e na Croácia. Ele ordenou todos os assassinatos.’’
O jornal ‘‘The Times’’ (de Londres) informou ontem que o presidente Clinton pode considerar a possibilidade do desembarque de 90 mil homens se não houver acordo num espaço de três semanas. A Otan voltou a atacar pesadamente ontem alvos em Belgrado, com um grande número de baixas civis, segundo as autoridades iugoslavas. Os sérvios reagiram disparando 30 mísseis Sam-8. A grande salva de mísseis - primeira tão intensa desde o início dos bombardeios - surpreendeu os estrategistas da Otan.

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