Na maior parte das igrejas católicas e protestantes de Belfast o sermão dominical foi seguido ontem de uma oração pela paz. As preces marcam uma semana que será decisiva para o processo de paz na Irlanda do Norte, que agora depende dos unionistas protestantes, depois da entrada em vigor do cessar-fogo declarado sábado pelo Exército Republicano Irlandês (IRA). A trégua teve início ao meio-dia de ontem, eliminando um obstáculo inevitável para as conversações sobre o futuro do Ulster.
Mas a atitude dos unionistas, que já ameaçaram sabotar o processo, será decisiva para encarar a resolução do conflito do Ulster, que em 28 anos causou mais de 3.200 mortos. Sábado à noite, um jovem de 17 anos foi atingido por disparos nas pernas, durante ataque atribuído a grupos paramilitares protestantes.
Para o primeiro-ministro britânico Tony Blair, a dificuldade está em convencer rapidamente os unionistas a que negociem, a partir de 15 de setembro, com seus adversários republicanos e católicos do Sinn Fein (braço político do IRA). Hoje, Blair se encontrará com David Trimble, dirigente do principal partido protestante, o Partido Unionista do Ulster (UUP, moderado).
Mas tudo será decidido a partir da próxima quarta-feira no castelo de Stormont, perto de Belfast, onde os partidos que participam atualmente das negociações, das quais o Sinn Fein está excluído, votarão as propostas anglo-irlandesas sobre o futuro do processo de paz. Estas propostas contêm um convite ao Sinn Fein de participar das negociações a partir de 15 de setembro, depois de um cessar-fogo do IRA de seis semanas.
Alguns partidos protestantes já se negaram a se sentar à mesma mesa de negociação que seus inimigos republicanos. ‘‘Ninguém pode acreditar no IRA’’, declarou Peter Robinson, vice-presidente do Partido Unionista Democrático (DUP, intransigente), referindo-se à ruptura em fevereiro de 1996 da trégua decretada pelo IRA 17 meses antes.
Parte difícilO cessar-fogo das milícias protestantes, decidido em outubro de 1994, prossegue em vigor oficialmente. Os unionistas também consideram ‘‘inaceitáveis’’, por serem demasiado vagas, as propostas anglo-irlandesas que prevêem o desarmamento das milícias paralelamente às negociações e não como condição prévia. Os unionistas, que acusaram o governo do primeiro-ministro britânico Tony Blair de ter ‘‘capitulado’’ ante as exigências republicanas, querem que o IRA comece a depor as armas antes do início das conversações com o Sinn Fein.
O primeiro-ministro irlandês, Bertie Ahern, que como Blair comemorou o cessar-fogo, conclamou os inimigos a restabelecerem a confiança mútua para ‘‘evitar novos 20 ou 30 anos de violência’’.
Se os unionistas rejeitarem quarta-feira as propostas anglo-irlandesas, serão considerados adversários da paz. A ministra britânica para a Irlanda do Norte, Mo Mowlan, já advertiu que estão em ‘‘posição difícil’’. ‘‘Faremos todo o possível para tentar tranquilizá-los’’, acrescentou, admitindo que ‘‘agora começa o trabalho mais difícil’’.
Londres e Dublin deram um prazo de oito meses a partir de 15 de setembro para tentar fazer aproximar duas posições totalmente divergentes e esboçar o futuro do Ulster. O Sinn Fein reafirmou que exige a reunificação da Irlanda, dividida há 75 anos, e os unionistas asseguram que a reunificação ‘‘não acontecerᒒ. O porta-voz da UUP, Ken Maginnis, acrescentou que ‘‘precisamente por isso, o processo (negociador) fracassarᒒ.

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