Tragédia desgasta a imagem de Putin
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segunda-feira, 21 de agosto de 2000
Associated Press De Moscou 
Junto com o submarino nuclear russo Kursk naufragou, ou pelo menos ficou parcialmente encoberta pelas águas, a imagem do presidente Vladimir Putin, cuidadosamente construída durante os meses da guerra na Chechênia mas agora ofuscada pela trágica morte dos 118 tripulantes da nave no mar de Barents.
Enquanto a opinião pública russa seguia minuto a minuto as desesperadas tentativas de regate dos marinheiros presos a mais de cem metros de profundidade, o Moskovski Komsolets, tablóide agressivo da capital russa, publicou na primeira página a foto de Putin e de seus principais assessores militares sob o título: Eles não afundam.
As meias verdades, a desinformação e, sobretudo, o orgulho ferido dos responsáveis pela Defesa russa Putin e, também, o ministro Igor Sergeyev e o comandante da Marinha, almirante Vladimir Kuroyedov , diante das ofertas de ajuda do exterior, causaram a morte da tripulação do Kursk tanto quanto a misteriosa explosão que o afundou.
Agora que o drama terminou da pior maneira possível sem sobreviventes e ainda sem uma reconstituição verossímil das circunstâncias do naufrágio muitos analistas afirmam que chegou a hora de pagar a conta da tragédia, e concordam que cabeças vão rolar.
O primeiro erro de Putin diante da crise no mar de Barents, sustentam analistas, foi permanecer num balneário do mar Negro onde se encontrava em férias quando ficou sabendo do naufrágio do Kursk.
A isso soma-se o fato de que o presidente russo que, para dar prova de coragem durante a campanha eleitoral, dormiu duas noites num submarino nuclear não fez nenhuma declaração sobre o assunto nas primeiras 48 horas do drama.
Mas o segundo erro do chefe do Kremlin, seguramente o mais grave, foi acreditar em seus assessores militares, que afirmavam que estavam em condições de resgatar a tripulação do Kursk sem ajuda estrangeira.
Enquanto isso não acontecia, Putin e sua administração não demonstraram a menor simpatia pelos familiares dos tripulantes do submarino afundado, negando-se inclusive a divulgar a lista dos nomes dos que estavam a bordo.
Tudo isso tem levado os cidadãos russos a questionar se Putin, eleito por ampla margem em março último por sua imagem de ter um caráter decidido e por seu empenho na Chechênia, não seja na verdade um frio agente da KGB sem o menor sentimento de compaixão por seus compatriotas.
Como sublinhava ontem uma fonte oficial russa, que pediu para não ser identificada, em tempos de crise o povo russo não quer um guerreiro, quer um líder com coração, um homem que se comove, que vai correndo ao lugar da tragédia, ou que pelo menos compartilha a angústia coletiva.
A indignação pública foi grande pelo fato de a tragédia ter envolvido jovens recrutas, com os quais quase todos os russos podem se identificar porque o serviço militar é obrigatório no país, disseram analistas.
Apesar de a imagem de líder forte de Putin ser um fator influente em sua popularidade, ele recuou em diversas questões e políticas que poderiam deixar o público insatisfeito. Seu antecessor, Boris Yeltsin, tinha fama de tomar decisões populistas, mas às vezes ignorava a opinião pública.
O almirante da Frota do Norte, Viatcheslav Popov, pediu perdão às famílias dos 118 tripulantes mortos no Mar de Barents no naufrágio do submarino nuclear, em entrevista ao vivo ao canal da estatal RTR ontem à noite.
Perdoem-me por não ter podido salvá-los, disse o almirante, visivelmente consternado. A tristeza nos abate, mas a vida segue, acrescentou a bordo do navio Pedro, o Grande, onde foram organizadas as operações de salvamento.


