Tommaso Buscetta morre aos 71 anos
France Presse
De Roma
Tommaso Buscetta morreu domingo nos Estados Unidos aos 71 anos. Ele foi o primeiro chefão da máfia que decidiu colaborar com a justiça italiana, e suas confissões, nos anos 80, permitiram assestar um dos mais duros golpes contra a Cosa Nostra, a temida máfia siciliana.
Em 1984, depois de ter sido detido no Brasil, país onde morou nos anos 50 e com o qual sempre manteve relações, foi extraditado para a Itália, onde decidiu falar a um juiz tudo o que sabia da organização criminosa.
Era a primera vez que um mafioso de alto calibre se confessava a um juiz, Giovanni Falcone, então menos famoso, e que anos mais tarde foi assassinado por sua luta contra a máfia, convertendo-se em um símbolo nacional.
Buscetta, com 56 anos, e que se definia como um verdadeiro homem honrado, havia liderado uma das guerras mais sangrentas dentro da organização contra os Corleoneses, impondo-se como um dos capos da chamada cúpula mafiosa.
Nascido em julho de 1928 em Palermo, Buscetta cresceu em um meio que admirava os valores da família e do trabalho. Entretanto, foi seduzido pelos princípios da Cosa Nostra. Para um jovem de 20 ou 30 anos a Cosa Nostra era algo esplêndido, um mundo fascinante, disse o ensaísta Pino Arlacchi, no livro Adio a Cosa Nostra.
Don Masino, como costumava ser chamado, se tornou nos anos 40 em um chefão temido e respeitável, que aplicava as rígidas regras da organização a todo aquele que se rebelasse ou que não as cumprisse.
Com América Latina manteve sempre fortes relações desde que resolveu emigrar para a Argentina em 1949, e depois para o Brasil e regressou em 1951 para a organização, administrando os negócios relacionados com o contrabando, o jogo, o comércio de cristais.
Buscetta negou sempre ter entrado no tráfico de droga e da prostituição, que
considerava negócios indignos. Em 1981, quando imperava uma feroz guerra interna dentro da Cosa Nostra entre famílias rivais, os Corleone o obrigaram a fugir do Brasil, depois do assassinato de seus dois filhos e mais de 20 parentes.
Detido em 1984, regressa à Itália e se confessa. Não sou um arrependido. Sou um mafioso e cometi erros que estou disposto a pagar. Pela sociedade, por meus filhos e pelos jovens, quero revelar tudo o que conheço desse câncer que representa a máfia, disse o juiz Falcone.
Pela primeira vez se pôde determinar o organograma secreto da Cosa Nostra, suas conexões, seus ritos de iniciação, normas e regras internas para se fazer respeitar. Suas revelações permitiram também realizar o primeiro grande processo contra a máfia siciliana, em 1986, com 475 acusados, revelando todos os segredos da organização.
Buscetta, que apontou como nova figura poderosa Toto Riina, o homem mais maléfico da história da máfia, detido em 1993, acusou também a classe política, e em particular o premier Giulio Andreotti, com grande cúmplice da organização.
Andreotti foi absolvido em 1999, o que decepcinou o grande acusador. Buscetta, que vivia nos Estados Unidos desde 1985 sob proteção da polícia, morreu de um câncer no sangue e nos ossos. Tinha acertado colaborar também com a justiça americana.O homem que decidiu colaborar com a Justiça revelando os segredos da máfia siciliana morreu no domingo, vítima de câncer
France PresseDON MASINOTommaso Buscetta é escoltado por policiais italianos. Não sou um arrependido. Sou um mafioso e cometi erros que estou disposto a pagar. Pela sociedade, por meus filhos e pelos jovens, quero revelar tudo o que conheço desse câncer que representa a máfia, disse





