Toledo, um índio na presidência
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sábado, 28 de julho de 2001
Paulo Daniel Farah Agência Folha De Lima 
Antropólogos, líderes indígenas e linguistas afirmam que preservar a língua original dos nativos significa garantir a transmissão de conhecimento e a própria identidade indígena
A chegada ao poder de Alejandro Toledo, empossado oficialmente ontem em Lima, reforça uma tendência de maior participação política dos índios na América Latina e um processo de valorização da identidade indígena, resgate das tradições e defesa dos direitos. Nascido em uma família miserável da região serrana (de seus 15 irmãos, nove morreram nos primeiros anos de vida), Toledo, com 55 anos, é o primeiro líder indígena a assumir democraticamente a presidência peruana. O economista, que estudou nos EUA, define-se como índio, rebelde com causa e fruto de um erro estatístico.
Toledo ressaltou sua origem étnica em toda a campanha eleitoral e recorreu a ícones como Pachacútec, um dos mais importantes imperadores incas. Sua propaganda também foi marcada por promessas populistas, como a criação de 1 milhão de empregos e cortes de impostos.
Hoje, será realizada uma cerimônia na cidadela de Machu Picchu, santuário do império inca, uma homenagem aos deuses andinos, segundo Aurelio Carmona, que vai comandar os rituais. Já para o antropólogo Rodrigo Montoya, a posse em Machu Picchu, local de imensa beleza, é um golpe de imagem, incluindo as oferendas ao Sol e a Pachamama.
Montoya disse que Toledo soube utilizar sua origem indígena com fins eleitorais, mas ainda não apresentou nenhuma proposta multicultural e multilíngue. Ninguém entre os ministros nomeados está a serviço da causa indígena. O ministro da Educação, em sua opinião, deveria incentivar o ensino bilíngue, num país com pelo menos 50 culturas diversas.
Organizador de uma antologia em cinco volumes de poesia na língua quéchua, ele afirmou que, por iniciativa dos índios, a educação bilíngue produziu resultados positivos.
É uma enorme responsabilidade que, depois de 500 anos, apareça na história do Peru um presidente eleito democraticamente de origem indígena. Espero poder contribuir para terminar com esse preconceito silencioso, afirmou Toledo. Questionado sobre como melhoraria as condições de vida dos indígenas, disse: Quero investir na população mais pobre, que tem uma alta correlação com ser indígena. Não é coincidência que os mais pobres sejam os indígenas.


