Uma desesperada operação de resgate terminou ontem quando mergulhadores noruegueses constataram que nenhum dos 118 tripulantes russos sobreviveu durante mais de uma semana após uma catastrófica explosão transformar o submarino nuclear em um amontoado de metal retorcido no fundo do mar.
Mergulhadores noruegueses que conseguiram finalmente abrir uma escotilha do Kursk depois de trabalharem nas profundezas do Ártico por mais de 24 horas disseram que o submarino estava completamente inundado.
Não havia sinal de que algum tripulante tivesse sobrevivido muito tempo dentro da avariada nave de guerra a 108 metros de profundidade.
Autoridades russas pediram à Noruega para ajudar a resgatar os corpos da tripulação do fundo do mar de Barents. Moscou estava considerando formas de trazer para a superfície o submarino, que contém alguns dos mais avançados armamentos e equipamentos da Marinha. Mas o precário projeto pode demandar semanas ou mesmo meses.
Existe uma crescente preocupação com os dois reatores nucleares do submarino, apesar de os mergulhadores noruegueses não terem encontrado sinais de vazamento de radiação.
O ministro da Defesa Igor Sergeyev expressou condolências aos familiares dos marinheiros e admitiu que a tentativa de resgate havia fracassado numa entrevista na noite de ontem à maior rede de tevê russa, a ORT.
‘‘Estamos todos de luto junto com os familiares e amigos’’, disse ele, que então fez uma pausa e suspirou profundamente. ‘‘Nunca esqueceremos o que os marinheiros fizeram, que fizeram o possível e o impossível.’’
Parentes e amigos da tripulação desmaiaram de dor ao saber que não havia sobreviventes. Outros russos, que acompanharam atentamente por rádio e televisão o drama, criticaram duramente o governo pela resposta lenta, trôpega, que deram ao desastre.
‘‘Eles mataram os meninos, é isso’’, disse revoltada Yekaterina Dyachkova, uma aposentada de Murmansk, sede da Frota Norte. ‘‘A Marinha deveria ter pedido ajuda imediatamente, mas eles esperaram demais.’’
O governo russo resistiu num primeiro momento a aceitar ajuda internacional, mesmo depois do repetido fracasso de suas tentativas de alcançar a escotilha de escape danificada do Kursk. Um minissubmarino russo levado ao local nunca foi usado.
Sergeyev disse que, durante a operação de resgate, ‘‘é possível que tenhamos cometido erros’’. Ele reclamou que uma escassez de recursos levou a Marinha a ficar com poucos mergulhadores e modernos equipamentos de resgate.
‘‘Nosso país foi roubado e retalhado nos últimos anos e as Forças Armadas receberam menos de 50% do que o orçamento prometia’’, afirmou.
O comandante da Frota Norte, almirante Vyacheslav Popov, disse em comunicado lido ontem na televisão que a tripulação não teve culpa do ocorrido. Dirigindo-se às viúvas e mães dos homens a bordo, ele disse: ‘‘Perdoem-me por não ter salvado seus marinheiros.’’
O vice-primeiro-ministro Ilya Klebanov afirmou que o governo iria pedir ajuda financeira internacional para fazer emergir o Kursk.
‘‘Com os equipamentos dos quais dispomos, não há possibilidade de fazer nada mais do que já fizemos’’, disse o vice-almirante norueguês Einar Skorgen. Resgatar os corpos ‘‘é uma operação completamente diferente’’.
Líderes mundiais expressaram pesar ontem às famílias dos marinheiros. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos anunciou que considerará qualquer pedido de ajuda da Rússia para ajudar a resgatar o submarino. Washington fez diversas ofertas de colaboração nas operações de salvamento que não foram aceitas.
O segundo maior jornal da Noruega, Dagbladet, havia denunciado os russos ontem num artigo de primeira página. ‘‘O pessoal de resgate norueguês está lutando contra o tempo – e contra os russos. Inverdades, incompetência e burocracia levaram a diversas confrontações.’’
O presidente Vladimir Putin, que não interrompeu suas férias de verão quando ocorreu o desastre, tem sido duramente criticado pela mídia russa e muitos russos comuns. Tem sido o maior golpe à imensa popularidade de Putin desde sua eleição em março.
O Kremlin tenta freneticamente conter os danos políticos. Putin ordenou ontem que seu gabinete ajude a providenciar ajuda e apoio aos familiares dos marinheiros.

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