Timor Oeste envergonha cúpula da ONU
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sábado, 09 de setembro de 2000
Gilles Lapouge Agência Estado De Paris 
As milícias pró-Indonésia do Timor massacraram, quinta e sexta-feiras, inicialmente três funcionários da ONU e, depois, parece que uns vinte moradores de uma vila em Timor Oeste.
Esses crimes aconteceram no momento em que, em Nova York, as Nações Unidas realizavam uma dessas insípidas cerimônias durante as quais os chefes de Estado do planeta pedem firmeza. Essa coincidência deve-se a um simples acaso ou foi programada pelos assassinos com o objetivo de obrigar os funcionários internacionais e a Cruz Vermelha a saírem do Timor Oeste? Pouco importa: nos dois casos, a ONU foi humilhada, ultrajada. E nos dois casos, o infeliz Timor persegue seu mártir.
Sentimos a pressão aumentar desde o início do mês de agosto. E até mesmo há mais tempo, desde que o Timor Leste obteve, após muitas peripécias, sua independência. Logo depois dessa independência, as milícias pró-Indonésia, que eram mantidas em segredo pelo exército de Jacarta, contra-atacaram. E, em setembro de 1999, essas milícias saquearam o Timor Leste, esvaziando-o de sua população e conseguiram banir para o Timor Oeste uma enorme massa de timorenses orientais, 270 mil, que desde então vivem na parte Oeste, indonésia, da ilha em condições indecentes.
Era justamente para cuidar desses deportados que a ONU e organizações humanitárias estavam presentes na parte indonésia, Oeste, do Timor. O objetivo era proteger os refugiados contra a violência das milícias indonésias e ajudar o repatriamento para o Timor Leste desses deportados. Não é preciso dizer que as milícias se opunham a isso.
Houve muito pouco retorno. Há poucas semanas, as milícias estabeleceram controles ferozes sobre as estradas, de maneira a impedir qualquer repatriamento.
O presidente indonésio, Abdurrahman Wahid, encontrava-se na ONU, em Nova York, quando os massacres e a decisão de retirar a ONU do Timor Oeste foram anunciados. Wahid, repreendido por Clinton, Albright e outros logo fez cara de triste.
Wahid não está fingindo. A impunidade com a qual as milícias se comportam só pode ser explicada pelo apoio das autoridades indonésias, sobretudo pelo exército, que jamais aceitou que um pedaço da pátria desaparecesse. O presidente nada fez, há um ano, para acalmar os delírios dos soldados das milícias.
O segundo problema é o da utilização de observadores da ONU nessas regiões de risco. Sobre esse assunto, nenhum discurso da ONU ou dos chefes de Estado será mais consternante do que a carta escrita por um dos funcionários do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), o porto-riquenhho Carlos Casaeres, que passou um e-mail para Genebra, poucas horas antes de ser assassinado: Milícias estão na estrada. Elas farão tudo para destruir nosso escritório... Aguardamos esse inimigo, sentados como iscas, sem armas, esperando que a onda se quebre.
Vê-se que os chefes de Estado reunidos na ONU ficaram mexidos. Mas o que eles decidiram para que os funcionários da ONU deixem de ser, como tantas vezes (Serra Leoa, etc.), os reféns sem armas de bandos de assassinos, permanece ainda um mistério.


