Tigres asiáticos exportam crise
Repentinamente, os famosos tigres asiáticos que haviam surgido como um verdadeiro vendaval no panorama mundial, revelaram-se iguais ao ídolo apresentado na Bíblia: gigantes com pés de barro. A onda começou no final de outubro, quando a Bolsa de Hong Kong registrou quedas sucessivas na cotação das principais ações - chegou a bater em -13,70% no dia 28 - e arrastou os mercados asiáticos, europeus, latino-americanos e até a maior bolsa do mundo, de Nova York, que no dia 27 caiu 7,18%, à maior baixa dos 100 anos de história do índice Dow Jones Industrial. No mesmo dia a Bolsa de São Paulo caiu 14,9%.
Hong Kong parecia ser o centro do cataclismo. Sob certo aspecto, era. A antiga colônia britânica foi devolvida à China, sob uma nova forma de ação político-econômica. A China cunhou a frase um regime, dois sistemas para acolher sob o manto de um país comunista um dos baluartes do capitalismo, Hong Kong. A pressão que atingiu Honk Kong era especulativa, contra sua moeda. E o novo governo reagiu, aumentando os juros. A situação que já era crítica, notadamente na Ásia, complicou-se. E a impressão era a de que um verdadeiro cataclismo econômico estava varrendo o mundo.
O resto tem vindo como consequência. O mundo treme. O Brasil tomou suas providências. No dia 30 de outubro, o Banco Central tomou a primeira medida: dobrou as taxas de juros básicos da economia, remunerando melhor os investimentos para manter o interesse dos estrangeiros nas aplicações brasileiras. Como efeito colateral, os juros do crédito também subiram, pesando sobre o consumidor e trazendo o sério risco de uma recessão econômica. As projeções de crescimento do PIB para 1998 caíram de 4% para menos de 2%.
As turbulências continuavam na Ásia e o Brasil era alvo fácil para especuladores, que poderiam causar uma fuga de investidores. O governo precisava mostrar ao mercado que trabalhava para sanar o déficit em suas contas internas e externas. No dia 10 de novembro, depois de anunciar cortes de R$ 2 bilhões no Orçamento, o governo baixou 51 medidas para obter um ganho fiscal de R$ 20 bilhões.
A crise mundial não parece perto de ser superada. Os países da Ásia lutam para salvar suas moedas e recuperar a credibilidade. A Coréia do Sul, outro dos tigres, foi obrigada a aceitar um acordo para obter recursos do FMI. Desde logo, um resultado político surgiu como consequência: a oposição ganhou as eleições presidenciais, o que provocou nova comoção nos mercados. Nem mesmo as garantias oferecidas pelo presidente eleito de que aceitaria os termos dos acordos feitos pelo atual governo com o FMI tranquilizam o mercado. Ao contrário: o anúncio de um pacote de ajuda do Japão à Coréia do Sul provocou mais turbulência: operadores diziam que isto significava que o país estava mesmo afundando.
O Brasil acompanha a crise. O Congresso, finalmente preocupado com a situação, agilizou seu trabalho, adiantou as reformas da Previdência e Administrativa. A privatização prossegue, mas persiste certa incerteza sobre o destino das reformas e a própria situação do país que entra em 98 sob o clima incerto de eleições que poderão ser definidas como resultado do que venha a ocorrer no mundo e no país em termos econômicos.
Privatização Em um leilão dramático, o governo vendeu no dia 6 de maio a Companhia Vale do Rio Doce, a maior mineradora do mundo, adotada como símbolo pelos nacionalistas. Foi a mais polêmica privatização do governo Fernando Henrique Cardoso. O Consórcio Valepar, liderado pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), arrematou a Vale por R$ 3,3 bilhões, com ágio de 19,99%. Do total apurado, o governo ficou com R$ 3,2 bilhões. Três dias depois a companhia foi transferida oficialmente para a iniciativa privada. A Vale foi paga com o cheque de mais alto valor já emitido no País, de R$ 3.199.974.496.00. Só de CPMF, o cheque teve de descontar R$ 6,6 milhões.
A venda da mineradora foi marcada por uma intensa batalha judicial. Uma dessas batalhas ocorreu logo após o leilão, quando a juíza Valéria Medeiros, do Rio, concedeu liminar - cassada em seguida - suspendendo os efeitos da venda. Manifestações populares também foram rotina em todo o processo. No dia do leilão, cerca de 500 estudantes e sindicalistas entraram em confronto com a Polícia Militar, em frente ao prédio da Assembléia Legislativa, no Rio. Seis pessoas ficaram feridas - quatro policiais e dois manifestantes.
Com a aquisição, a CSN e os fundos de pensão, liderados pela Previ, sócios no consórcio, passaram a comandar o setor de aços planos no País. A Vale tinha assento, no Conselho de Administração da CST, Açominas, Usiminas e Cosipa.
Bancos A crise também atingiu sólidos estabelecimentos bancários, como o Bamerindus, alvo, em março, de intervenção decretada pelo Banco Central. O então presidente do BC, Gustavo Loyola, explicou que optou pela intervenção no Bamerindus - ao invés de decretar o regime de Administração Especial Temporária (Raet) - para permitir a utilização do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).





