‘‘Não imagino que haja nenhum pré-requisito para vestir os sapatos de Mandela. Ainda assim, ele possui pés muito grandes e não acredito que eu possa ficar mais alto nem vestir aquelas roupas esquisitas.’’ Esta é uma das formas que Thabo Mbeki, 56, favorito nas pesquisas para substituir Nelson Mandela, tem encontrado para escapar, com bom humor, das inevitáveis comparações com o principal líder antiapartheid e dos desafios que lhe estão sendo impostos como seu provável sucessor. Mbeki não tem o mesmo carisma catalisador do líder sul-africano e seus críticos o acusam de ser um burocrata com forte tendência para o autoritarismo.
Assim como Mandela, Mbeki nasceu em Transkei, uma das regiões rurais menos desenvolvidas da África do Sul, e também teve o apartheid como pano de fundo de sua história familiar. O pai, Govan Mbeki, foi professor secundário e ativista comunista. Esteve preso junto com Mandela em Robben Island por lutar contra a política segregacionista do apartheid. Já o filho de Thabo, Kwanda, desapareceu quando tentava deixar ilegalmente o país em 1970. Desconfia-se que tenha sido morto na fronteira pelas forças do então regime racista sul-africano.
Interessado por política desde pequeno, por influência dos pais, Thabo Mbeki entrou para a Liga Jovem do Congresso Nacional Africano (CNA) quando tinha apenas 14 anos. Aos 16, apaixonou-se pela filha de um diretor de escola, engravidando-a o que causou um enorme escândalo na localidade.
Em 1962, quando as atividades do CNA foram oficialmente banidas, Mbeki deixou a África do Sul de forma ilegal para estudar no Reino Unido. Depois de se formar em economia na Universidade de Sussex, ele viajou para Moscou, onde fez treinamentos de guerrilha, e foi representante do CNA em alguns países da África. Mbeki retornou a Johannesburgo em 1990, depois de quase 30 anos afastado da África do Sul. Tornou-se então uma espécie de diplomata do CNA, fazendo contatos com políticos e empresários estrangeiros. Além disso, atuou como mediador em conflitos regionais do continente africano.
Em 1997, foi nomeado líder do partido. Desde então, na condição também de vice-presidente, ele vem assumindo o governo do país, com a gradual saída de cena de Mandela, que, nos últimos meses, tem delegado mais e mais poderes a seu vice. Um dos problemas de Thabo Mbeki é que, por mais agradável que ele seja, falta-lhe o famoso calor humano de Mandela. Com efeito a imagem que o perseguiu durante seus primeiros anos como vice-presidente foi a de um teórico fumador de cachimbo que evitava o contato com o povo. Não mais. Hoje em dia, Mbeki anda por aí dando apertos de mão, beijando bebês e ouvindo o que as pessoas têm a dizer.
Combate ao desemprego Entre suas promessas de campanha estão a luta contra o desemprego e a melhoria do padrão de vida da maioria negra. Hoje, cerca de 42% dos adultos negros não têm emprego (contra apenas 4% dos adultos brancos desempregados). Pelo menos 10 milhões de pessoas - quase um quarto da população do país - vivem em barracas sem condições de saneamento básico. A economia sul-africana foi seriamente abalada pela crise asiática, que agravou os problemas sociais e provocou a desvalorização da moeda em cerca de 16%.
Mbeki, ex-marxista, hoje tem uma orientação mais liberal e acredita que pode criar empregos e amenizar a pobreza abrindo o país para investimentos estrangeiros e acelerando o programa de privatizações.

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