Teologia da Libertação pode ter nova concepção
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sábado, 09 de abril de 2005
Maria Duarte<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A Teologia da Libertação, uma das dores de cabeça do Papa João Paulo II no Brasil, ganha novo espaço para discussão com a mudança no Vaticano, que ainda não definiu quem será o sucessor de João Paulo II. É grande a expectativa em relação ao conclave, o encontro de cardeais que escolherá o futuro Papa, marcado para o dia 18 deste mês.
A Teologia da Libertação é uma concepção nascida nos anos 60, na América Latina, como método de análise da realidade latino-americana com base no referencial marxista. João Paulo II, polonês que combateu regimes totalitários como o stalinismo e o nazismo, discordava do método da Teologia da Libertação, defendo os métodos da própria Igreja para analisar a realidade latina.
Apesar das reservas do Papa, o teólogo e escritor Frei Betto avalia que essa teoria ''está viva'' e conseguiu chegar ao Vaticano. ''Se analisarmos os discursos recentes do Papa, percebemos temas como a dívida externa dos países pobres, críticas ao neoliberalismo. O Papa passou a abodar esses temas (frequentes na discussão da Teologia da Libertação) a partir de 1985'', observou Frei Betto, em entrevista à Folha, por telefone.
O teólogo aponta que a abordagem que será dada à Teologia da Libertação dependerá de quem for o novo Papa. Ele espera um sucessor progressista, ao contrário de João Paulo II, que era conservador nas questões doutrinárias. ''Não queremos um reacionário. Seria caótico, não seria católico'', comentou.
Na opinião do teólogo Mário Antonio Betiato, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná, a Teologia da Libertação deve ser repensada em função das mudanças no cenário mundial, como a globalização.
''O Papa teve uma experiência amarga com o marxismo. Defendia que a Igreja tem seus próprios métodos de análise da realidade e que não depende do marxismo para isso'', analisou o professor. O teólogo esclarece que a doutrina social da Igreja não propõe uma luta de classes armada, como o marxismo. ''João Paulo II vai passar para a história como um grande defensor dos direitos humanos'', emendou.
O professor acredita que a Teologia da Libertação tem espaço para ser discutida, mas que deve ser focada mais nos movimentos étnicos, por exemplo, do que nas classes sociais, como antes. ''A concepção é outra hoje, não tem mais a conotação da luta de classes'', ponderou.
O ex-frei Leonardo Boff, que em 1992 deixou o sacerdócio após uma série de conflitos doutrinais com a Congregação da Fé do Vaticano, é duro nas críticas ao Papa polonês. Boff espera que o sucessor de João Paulo II ''não tenha a arrogância e o fundamentalismo doutrinário deste pontificado''. A declaração foi dada esta semana ao jornal francês Liberation.
Na opinião dele, João Paulo II executou uma ''contra-reforma da Igreja, vendo no processo de modernização que esta atravessava desde os anos 60 uma ameaça para a identidade católica''. O ex-frei afirmou ainda que o próximo Papa deverá colocar a globalização no centro de suas preocupações. ''A pobreza crescente no mundo e a devastação ecológica são seus principais desafios'', avaliou. ''O Vaticano deve se descentralizar e, para começar, se desocidentalizar'', completou.
Boff explicou que, no início, João Paulo II viu na Teologia da Libertação ''a porta de entrada ao marxismo, doutrina que denunciava por seus excessos na Polônia, sua terra natal. No entanto continua Boff , depois da queda do comunismo, quando viu as injustiças que o capitalismo selvagem provocou no antigo bloco soviético, o Papa parou de combater essa doutrina, declarando inclusive que não só era útil como também necessária.''
O arcebispo de São Paulo, dom Cláudio Hummes, um dos nomes cogitados para suceder João Paulo II, já afirmou que cada Papa representa um novo tempo e que a Igreja precisa se abrir a discussões.


