Gilles Lapouge
Agência Estado
De Paris
‘‘A coisa está esquentando’’ uma vez mais no estreito de Formosa, esse braço de mar que separa a enorme China comunista (continental) da Ilha de Taiwan (22 milhões de habitantes): Taiwan, onde comandam os herdeiros da China nacionalista de Chan Kaishek. Pequim acaba de declarar ‘‘zona de guerra’’ sua região ocidental de Lanzhou, onde estão suas bases de mísseis intercontinentais.
A ameaça chinesa dirige-se ao mesmo tempo contra Taiwan e contra os Estados Unidos. Relembremos a origem destes novos ‘‘preparativos bélicos’’ no estreito de Formosa: Lee Teng Hui, presidente de Taiwan, declarou que as relações entre a China comunista e a ilha de Taiwan devem seguir o modelo das relações ‘‘entre Estados’’. Em poucas palavras, Taiwan não quer ser tratada como ‘‘uma província’’ subordinada a um poder central situado em Pequim. Naquele dia, Lee Teng Hui pôs um fim à doutrina ‘‘de uma China única’’ que até então regia as relações entre os dois pedaços da China.
Pequim reagiu: manobras, ameaças... E, como por ocasião das anteriores advertências a Formosa, Washington se colocou ao lado de Taiwan (em 1996, o Pentágono despachou dois porta-aviões, o Nimitz e o Independence para a região), a China comunista fez uma forte advertência aos norte-americanos: segunda-feira passada, Pequim testou um míssil ‘‘Dong Feng 31’’, com alcance de 8 mil quilômetros, portanto capaz de atingir os Estados Unidos.
Ontem, novo alvoroço em Pequim: ‘‘A China’’ – diz a revista ‘‘Haunqiu Shibao’’, do Comitê Central do Partido Comunista – ‘‘concluiu todos os preparativos para um recurso à força contra Taiwan’’. E o jornal do Exército acrescentou: ‘‘O Exército Popular de Libertação está pronto para esmagar qualquer tentativa de dividir a mãe-pátria’’.
Pior ainda: A revista ‘‘Huanqiu Shibao’’ ironiza os norte-americanos: ‘‘As bombas de nêutrons da China são mais do que suficientes para acabar com os porta-aviões norte-americanos!’’ Houve tantas comédias desse tipo, no decorrer dos anos, que a gente sente a tentação de sorrir. Mas, desta vez, a China, que já engoliu Hong Kong e Macau, poderia efetivamente querer tragar Taiwan, tanto mais que o clima interior da China é desagradável e difícil.
Em todo caso, os Estados Unidos levam isso a sério. No dia 6 de agosto, Washington assinou um acordo com o Japão de partilha tecnológica em matéria de defesa antimíssil no valor de 3 bilhões de francos em seis anos. E no Congresso norte-americano, está sendo esboçada uma ofensiva destinada a instalar no Japão, contra a Coréia do Norte, e também em Taiwan, contra a China, um escudo de mísseis antimísseis.
A França ouve com preocupação este ‘‘barulho de botas’’. Segundo a avaliação francesa, ao responder aos desafios chineses, os Estados Unidos podem empurrar a China a modernizar seu arsenal balístico. Toda a Ásia corre o risco de ser arrastada nesta ‘‘escalada’’ balística e poderia surgir um confronto entre dois blocos: de um lado, os Estados Unidos, o Japão e Taiwan. Do outro, a China, a Coréia do Norte e a Rússia (nestas controvérsias estratégicas, a Rússia assume o partido da China comunista).
O que Paris teme é que as manobras de Pequim e de Taiwan e o aperfeiçoamento dos arsenais tenham como resultado lançar o mundo numa nova ‘‘Guerra Fria’’, não mais contrapondo o império soviético ao Ocidente, mas a China ao Ocidente. Afirma-se que esta foi a análise feita na semana passada pelo ministro das Relações Exteriores da França, Hubert Védrine, numa carta à secretária de Estado norte-americana , Madeleine Albright.
O jornal ‘‘Le Figaro’’ registrou uma frase de um assessor de Jacques Chirac: ‘‘Nesta questão, nós estamos ao lado da China. Os mísseis antimísseis americanos reduzirão a nada a defesa chinesa e lançarão uma corrida permanente entre a espada e o escudo’’.
Com certeza, os especialistas franceses acham que toda essa gesticulação se explica por razões diferentes: a China tenta distrair seu povo de suas atuais dificuldades. E o Pentágono americano estaria buscando um inimigo chinês a fim de poder desenvolver a indústria militar americana. Mas, acrescentam os especialistas, estas operações de propaganda são perigosas: começam como comédias e às vezes terminam em dramas’’.

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