Técnicos alertam para o risco de radiação
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de agosto de 2000
Associated Press - De Oslo e France Presse - De Moscou 
A fundação norueguesa Bellona, de reconhecida trajetória na questão ambiental, pediu que se decida prudentemente o destino dos restos do submarino russo Kursk, naufragado no mar de Barents, e alertou sobre uma possível contaminação radioativa.
Deve-se agir rapidamente, mas sem precipitações, recomendou a fundação antes que se decida o que fazer com os restos que jazem a 108 metros de profundidade, destacando a necessidade de se saber claramente os riscos ligados a qualquer solução possível.
A afirmação dos especialistas da entidade norueguesa foi dirigida àqueles que solicitaram a recuperação do submarino, como o Greenpeace, e aos que como o diretor da revista Janes Fighting Ships, Richard Sharpe acreditam que o fundo do mar é o local mais seguro para um reator nuclear apagado.
Um estudo publicado ontem pela fundação analisou as diversas hipóteses de solução, já que as autoridades responsáveis deverão decidir sobre resgatar o submarino ou abandoná-lo devido aos danos sofridos.
Em ambas as situações, a questão principal é o destino dos reatores nucleares, os quais, em última instância, poderiam ser sepultados em um sarcófago de cimento, como já ocorreu com resultados pouco satisfatórios na usina nuclear de Chernobyl.
Um ex-engenheiro nuclear da marinha russa, agora fervoroso defensor de meio ambiente, disse ontem que o submarino Kursk, que jaz no fundo do mar de Barents a mais de cem metros de profundidade, poderia começar a vazar radiação em seis semanas ou antes.
Creio que se os reatores não tiverem nenhum dano estrutural, então não deve acontecer nada em um mês, ou em um mês e meio, disse Alexander Nikitin, que se encontra nos Estados Unidos. Por outro lado, se houve uma ruptura ou outro dano no reator, então a radiação começará a vazar em poucas semanas, disse.
Nikitin, de 46 anos, ganhou notoriedade no início de 1996, quando as autoridades russas o detiveram por revelar segredos de Estado em um informe que recebeu sobre riscos de radiação causadas pela Frota do Norte, para a qual havia prestado serviços como engenheiro nuclear em um submarino. Foi liberado onze meses depois em meio a forte pressão internacional.
No ano passado, uma corte de São Petersburgo absolveu Nikitin de todas as acusações, mesma atitude da Corte Suprema da Rússia em abril deste ano. Mas o Procurador-Geral russo apelou da sentença da Corte Suprema, que analisará o caso em 13 de setembro. Enquanto isso, Nikitin se encontra nos Estados Unidos, falando sobre problemas ambientais.
Ele disse na entrevista que vários fatores como as correntes submarinas locais, a temperatura da água e a água que circula pelo compartimento de reatores teriam influência nos futuros vazamentos radioativos. De acordo com o engenheiro, os vazamentos também seriam difíceis de monitorar. As massas dágua tendem a dispersar os materiais radioativos, e por isso os métodos de monitoração poderiam não acusar a presença de radiação. Nikitin declarou que o mero fato de os reatores nucleares estarem debaixo dágua já cria o perigo de vazamentos radioativos.
O Kursk, submarino de ataque de classe Oscar II, estava equipado com dois reatores nucleares, de acordo com especialistas norte-americanos. Afundou em 12 de agosto, enquanto realizava exercícios navais no mar de Barents, com 118 homens a bordo, que morreram no acidente.
O Kremlin declara hoje estado de luto oficial pela morte dos 118 oficiais e marinheiros mortos no naufrágio do submarino nuclear Kursk. Ontem, sob forte segurança militar, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, voou para a base militar em Severomorsk, onde estão os familiares dos marinheiros mortos no acidente.


