Sunitas e xiitas contra os EUA
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de julho de 2003
Nadra Sauli<br>France Presse 
Bagdá - Enredadas há dois meses e meio nos baluartes sunitas do centro do Iraque, as tropas americanas se vêm agora obrigadas a se defender numa nova frente, a do descontentamento popular xiita em Bagdá e no sul do país.
Os líderes religiosos xiitas optaram pela demonstração de força ao reunirem ontem, na cidade santa de Najaf, que abriga o túmulo do imã Ali, venerado pela comunidade xiita, mais de 10.000 fiéis.
Os manifestantes, que chegaram de diversos lugares do país, participaram de marcha na qual gritavam contra os ''Estados Unidos e a arrogância americana'', proclamando ao mesmo tempo sua fidelidade a Sayyed Moqtada Sadr, um chefe religioso que teve a casa cercada no dia anterior por forças americanas.
No entanto, as autoridades religiosas xiitas insistiram em que a manifestação deva ser pacífica. ''Queremos uma solução pacífica com os Estados Unidos e não buscamos o derramamento de sangue'', declarou o porta-voz de Sayyer Sadr, xeque Mohammed Yaacubi.
Yaacubi destacou que não chegou em absoluto o momento de ''uma insurreição armada ou de uma intifada, pelo menos por enquanto''.
Assim, os militares americanos deverão, a partir de agora, levar em consideração um novo dado: não contam indefinidamente com o apoio das populações xiitas que, no entanto, eram hostis ao regime de Saddam Hussein.
Até o momento, as regiões xiitas pobres, arrasadas pelas sucessivas guerras e ignoradas pelos programas de desenvolvimento do governo central, eram consideradas pelos soldados americanos como as regiões ''mais seguras''.
O descontentamento da população aumentou com a criação, há uma semana, do Conselho do goberno transitório e com o anúncio dos nomes dos 25 membros, dos quais 13 são xiitas, em maioria exilados e desconhecidos no país.
Algumas organizações, como a Fundação xiita Sadr, que goza de grande poder no deprimido bairro de Sadr City, a leste de Bagdá, viu no dito conselho ''um complô dos Estados Unidos que quer provocar uma secessão no país, dividindo os iraquianos entre sunitas, xiitas, curdos, turcomanos, cristãos, etc''.
Neste ambiente, a decisão dos Estados Unidos de cercar com seus soldados a casa de um líder religioso antiamericano na cidade santa de Najaf, foi a gota d'água.
Em outra frente, o cerco aos militares americanos prosseguia nas regiões tribais sunitas. Dois soldados morreram e um ficou ferido ontem numa emboscada perto de Talla Afar, oeste de Mossul, norte do Iraque, informou um porta-voz americano.
Desde 1º de maio, quando foi anunciado o fim da guerra, a ''guerrilha'' contra as tropas americanas que opera no ''triângulo'' sunita do centro do Iraque, delimitado pelas cidades de Bagdá, Ramadi a oeste e Tikrit ao norte, causou pelo menos 37 mortos.


