Najaf - Soldados espanhóis abriram fogo ontem, em circunstâncias não definidas, contra manifestantes xiitas radicais que marchavam entre as cidades santas de Najaf e Kufa, deixando pelo menos 24 mortos e cerca de 150 feridos.
Em Bagdá e Basra (sul), centenas de partidários do líder xiita Moqtada Sadr iniciaram uma manifestação, mas nenhum incidente foi registrado, segundo os correspondentes da France Presse na capital e na grande cidade do sul do Iraque.
Um médico do hospital Al Sadrein de Najaf, Mohamad Hussein al Husseini, afirmou que os mortos e os feridos tinham sido baleados pelas forças da coalizão, que nessa cidade são principalmente espanholas.
''Há pelo menos vinte mortos e mais de 150 feridos nos seis hospitais da cidade'', situada a 160 km ao sul de Bagdá, afirmou o médico Hassan Tabet al Dulami, do hospital Al Hakim, após entrar em contato com todos os centros de saúde de Najaf.
Os soldados da coalizão abriram fogo contra os manifestantes que se dirigiam à base espanhola da força multinacional, situada a 5 km de Najaf, comprovou um jornalista da France Presse. ''As pessoas caíam no chão, outras tentavam fugir enquanto as balas cruzavam todas partes e ouvíamos explosões. Todo mundo procurava um lugar para se proteger, mas atrás das pessoas'' avançavam os militares, contou um repórter que se encontrava no lugar. ''Perto de mim havia pelo menos vinte feridos, entre eles três religiosos'', disse um fotógrafo.
O motivo do início do confronto ainda continua confuso. ''Estávamos caminhando pacificamente e quando chegamos na frente da base alguns manifestantes começaram a lançar pedras contra os espanhóis, que dispararam para o ar e lançaram granadas '', contou um dos manifestantes, Hussein Ali, de 21 anos. ''Alguns manifestantes, que estavam armados, dispararam contra os soldados, que responderam disparando sobre a multidão. Foi uma carnificina'', acrescentou a testemunha.
Segundo Jaled Mohammad, de 28 anos, membro do ''Exército do Mehdi'' (a milícia de Moqtada Sadr) foram os membros das forças de segurança iraquianas que começaram a disparar primeiro.
''Por quê atiraram contra nós? Os soldados iraquianos começaram a disparar nos manifestantes e depois os soldados espanhóis fizeram o mesmo'', afirmou.
Segundo o fotógrafo da France Presse presente no lugar, um comboio de quatro veículos espanhóis passou em frente dos manifestantes e estes reagiram excitados e começaram a gritar: ''Não, não aos Estados Unidos, não a Israel'', lançando pedras e xingando os militares. O comboio se posicionou a cerca de 30 metros e depois abriu fogo sobre as primeiras filas, que começaram a cair.
Os manifestantes tinham chegado à base para depois irem para Kufa, cidade próxima a Nayjf, no centro de Iraque, onde se encontram os escritórios de Moqtada Sadr, quando começaram os disparos, seguidos das sirenes das ambulâncias que foram para o lugar.
Em Bagdá, centenas de xiitas responderam a Moqtada Sadr e começaram a se manifestar em frente ao quartel-general da coalizão, cujas entradas foram fechadas por temor de ações violentas.
Cerca de outros 300 manifestantes se reuniram na praça de Fardus, perto do perímetro de segurança estabelecido pelo exército americano em torno dos hotéis Palestina e Sheraton, onde se hospedam os ocidentais que trabalham para a coalizão e os jornalistas estrangeiros.
Outros se reuniram na mesquita Rahman, do bairro Mansur de Bagdá, onde se encontram os escritórios do jovem chefe xiita. Em Basra, cerca de 600 manifestantes se reuniram no centro, perto de uma base britânica.
A marcha de Nayaf começou na manhã de domingo e era liderada por milicianos do ''Exército do Mehdi'', vestidos de negro e encapuzados, com uma faixa verde na cabeça. Os manifestantes gritavam ''Abaixo os Estados Unidos'' e muitos levavam retratos de Moqtada Sadr e de seu pai Mohamed Sadeq Sadr, assassinado em 1999 sob o regime de Saddam Hussein. ''Ontem nos manifestamos pela libertação imediata de Mustada al Yaacubi (chefe do escritório de Moqtada Sadr em Najaf) e hoje nos dirigimos para a base militar onde se encontra detido'', disse à AFP um dos chefes do ''Exército de Mehdi'', Abu Jafaar al Enaizi.
Os xiitas acusam os espanhóis de terem detido no sábado Yaacubi, mas as tropas européias desmentiram qualquer participação nesta operação. Aviões e helicópteros americanos começaram a voar sobre o setor a baixa altura. Em Kufa, os partidários de Moqtada Sadr invadiram a delegacia de polícia e expulsaram os agentes de segurança. Várias horas depois do começo dos incidentes ainda era possível ouvir os tiros nas duas cidades santas onde vivem os principais chefes xiitas do Iraque e onde centenas pessoas estudam religião.

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