Sobrevivente do Katrina lembra momentos de terror
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de setembro de 2005
Luciana Pombo<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Depois de quase uma semana de medo e angústia, a curitibana Mônica Vassão, de 25 anos, conseguiu ser transferida ao lado da amiga mineira Letícia Figueiredo Alvarez da Silva Campos, de 21 anos, para um hotel em Dallas. As duas brasileiras ficaram ilhadas em Nova Orleans, nos Estados Unidos, por conta das enchentes provocadas pela passagem do furacão Katrina. Elas tiveram que conviver com outras 25 mil pessoas no Estádio Superdome e contam que foram vítimas de horas de pavor e sofrimento. Agora, planejam voltar para o Brasil no dia 13 de setembro.
Mônica ficará apenas uma semana e retornará para Kanzas, no estado de Missouri, onde viverá com uma família alemã até que o curso de pós-graduação em desing gráfico termine, em fevereiro de 2006. Os pais da publicitária curitibana, Vera e Josemil Vassão, ficaram felizes ontem de manhã quando conversaram por telefone com a filha. ''Ela nos contou que está muito chocada. Mas me sinto feliz em saber que ela voltará e nos abraçará daqui a alguns dias. O desespero acabou'', contou a mãe.
Em Dallas, a reportagem da Folha conseguiu contato com as brasileiras. A mineira Letícia disse que passou maus ''bocados''. Mas agora está bem. Mônica contou que escreveu um diário. Veja a entrevista exclusiva concedida à Folha:
Folha Como foram os momentos em Nova Orleans?
Mônica Foram momentos assustadores. Você está ali de verdade, sofrendo, vivendo aquela realidade que os outros só podem ver pela TV. Sofri dentro do Estádio Superdome todo o tipo de discriminação.
Folha Por que você era discriminada?
Mônica Todo o grupo de estrangeiros era discriminado. Os americanos são negros. Os estrangeiros eram brancos. Tivemos que nos unir. Fizemos uma lista com os nomes de todos os estrangeiros e fazíamos tudo juntos para evitarmos as represálias. Tivemos sorte porque as Forças Armadas deram preferência para os turistas estranfeiros...
Folha O que você viu de pior dentro do estádio?
Mônica Crianças e mulheres sendo estupradas. Pessoas se suicidando. Cem pessoas morreram num hospital da região e os corpos foram jogados dentro do estádio. Não quis ver. Mas o fato de saber que eles estavam lá era assustador. O local não tinha luz. O banheiro estava transbordando. Não tinha água nem para tomar, nem para lavar as mãos. A gente resolveu escrever um diário para lembrar tudo. Fiquei tão chocada que me dá branco na hora de falar sobre os dias de pavor, temor, medo e muita tensão...
Folha Até quando vocês ficaram no Superdome?
Mônica Até quarta-feira. Já estavam lá 45 mil pessoas. Faltava comida. Para comer, enfrentávamos uma fila de três horas e éramos humilhadas. Tudo o que eu queria era poder me comunicar com minha família. Estava no meio do nada. Ficamos quatro dias lá, mas parecia uma eternidade.
Folha Vocês foram levadas para onde?
Mônica Para um estádio menor, na frente do Superdome, onde ficavam os doentes. Nosso grupo teve que ir escondido para lá. Ali a gente não corria mais risco de assaltos e estupros. Entretanto, estávamos expostas às doenças. A gente tinha que usar máscara e luvas por causa do risco de contaminação. Ajudávamos aliviando e abanando os doentes que estavam em cadeira de rodas. Eram mais de 100 doentes. Éramos voluntários lá. Sorríamos quando conseguíamos aliviar a dor dos mais idosos.
Folha- Quanto tempo vocês ficaram lá?
Mônica Um dia. No dia seguinte fomos levados para um hotel bem perto do estádio. Fomos transportados num caminhão como se fôssemos uma mudança. Estávamos lá tranquilos quando ouvimos um grito de mulher. Nos escondemos e ficamos sabendo que os americanos que estavam no Superdome tinham nos descoberto lá e estavam escalando o prédio para entrar no hotel. Foi horrível. Uma longa espera para que pudéssemos chegar em Dallas.
Folha Quando vocês sairam de lá?
Mônica Somente ontem, às 14h (17h no Brasil). A viagem foi de ônibus. Estávamos em segundo no comboio. O ônibus da frente capotou. Foi um pesadelo. Pessoas ficaram feridas. Não tínhamos um momento de paz. Mesmo assim, tentávamos manter o bom-humor. Chegamos em Dallas às 2h da madrugada de sábado (ontem, às 5h da madrugada no Brasil).
Folha O que vai fazer agora? Pretende voltar para o Brasil?
Mônica A Letícia volta dia 13 de setembro, quando termina o intercâmbio dela. Quero ir também e ficar uma semana no Brasil para ver meus pais. Estou com muitas saudades e preciso de um descanso. Estou abalada.


