Sob terror, brasileiros deixam Bissau
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domingo, 14 de junho de 1998
Agência Estado 
João Relvas/AFPSaída de emergênciaRefugiados de Guiné-Bissau aguardam desembarque de navio no porto de Dacar, capital do SenegalOs últimos momentos em Guiné-Bissau foram de terror para os 19 brasileiros missionários da Assembléia de Deus e operários da construção civil, a maioria paraibanos e gaúchos, que chegaram ontem de madrugada a Brasília, de carona no avião do vice-presidente da República, Marco Maciel. Uma bomba explodiu a menos de cinco metros de onde estávamos, no porto, contou o evangélico Daniel Assis e Silva, um dos dois mil estrangeiros a fugir de Guiné-Bissau no cargueiro português Ponta de Sagres. O navio chegou a ser atacado ao aproximar-se do porto, relatou Marco Maciel.
Maciel disse também que a situação na capital Bissau continua muito confusa. No momento, o único caminho é o da negociação política, afirmou o vice-presidente. Segundo informação do Itamaraty, o total de brasileiros residentes em Guiné-Bissau é de 200. Desde a semana passada, o chefe das Forças Armadas, Ansemane Mané, destituído do cargo sob o argumento de contrabandear armas para os guerrilheiros da região de Casamansa, lidera uma rebelião contra o governo do presidente João Bernardo Vieira. Cem soldados e rebeldes já morreram no conflito.
Um dos brasileiros que chegaram ontem a Brasília, o paraibano Adeilton Avelino Costa, disse que viu, de sua casa, um fuzilamento. Um rebelde puxou um militar, levou para um canto e o fuzilou, conta Vieira, que morava perto dos quartéis onde havia o maior conflito. Costa ganhava R$ 3 mil mensais na empreiteira portuguesa Ankar, onde foi obrigado a abandonar US$ 18 mil em um cofre.
Na última sexta-feira, depois de cinco dias de combates, a tropa rebelde concordou em fazer uma trégua de quatro horas, das 7 horas às 11 horas, para os estrangeiros embarcarem no Ponta de Sagres e saírem do país. Mas o navio se atrasou e só zarpou às 18 horas.
Desconfiados de que o governo aproveitaria a retirada dos estrangeiros para desembarcar mais tropas aliadas vindas do Senegal e iniciar uma aproximação, os rebeldes começaram a dispararar suas armas e a lançar bombas. A todo instante, os estrangeiros eram obrigados a se jogar no chão. Um senhor chegou a pular na água para se proteger. Entre os brasileiros havia quatro crianças, uma delas de 11 meses.
Os rebeldes tentaram bombardear o navio Ponta de Sagres, mas o seu capitão, considerado um héroi pelos brasileiros, esperou até o último estrangeiro embarcar. A salvo no Ponte de Sagres, os refugiados tiveram de enfrentar 30 horas de viagem desconfortável, sem ter o que comer ou beber até Dacar, capital do Senegal, onde três aviões Hércules os levariam para Lisboa. O navio-cargueiro não estava preparado para resgatar pessoas. Inicialmente, sua viagem a Bissau era para entregar um carregamento de produtos. Com o conflito, o navio não pode descarregar, e as pessoas tiveram que se acomodar em cima dos containers, expostas ao sol.
Algumas precisaram tomar soro, lembra a evangélica Lenir Kwiatkowski. A sua filha Katlein, de 4 anos, e as demais crianças ganharam cinco biscoitos cada uma. A menina ainda está traumatizada. Qualquer barulho, ela se atira ao chão, conta Lenir. Por quase uma semana, no meio do tiroteio, os brasileiros tiveram que ficar trancados em casa e deitados no chão a maior parte do tempo. Ficávamos no chão, não podíamos acender luzes, e no final cortaram a energia, a água e o telefone, relatou Nara Assis e Silva que deixou o marido, Claudio, em Bissau. Ele preferiu dar lugar às mulheres, disse Nara. No porto, Claudio pediu à mulher e aos filhos para voltarem a Bissau assim que a situação melhorar.


