Associated Press
De Abidjã, Costa do Marfim
Somente dez sobreviventes foram encontrados agarrados a destroços do avião da Kenyan Airlines ou nadando entre os corpos das outras 169 pessoas que estavam a bordo do Airbus A301, que cobria a rota Abidjã-Lagos-Nairóbi e caiu domingo à noite no mar dois minutos depois de decolar do aeroporto Felix Houphouet Boigny, em Abidjã.
Equipes de resgate continuavam ontem à tarde vasculhando as águas frias a 5 quilômetros da costa, mas haviam perdido quase toda a esperança de encontrar mais sobreviventes. Oitenta e seis cadáveres haviam sido resgatados e 83 pessoas continuavam desaparecidas.
Alguns sobreviventes disseram que não houve nenhuma advertência da tripulação e não ouviram nem viram explosão ou fogo.
Outras testemunhas, no entanto, afirmam ter visto fogo saindo do avião, com o qual a torre de controle tentou, em vão, entrar em contato. As testemunhas coincidem em destacar que o avião não conseguiu tomar altitude antes de se chocar com a água e afundar numa área onde o mar tem entre 60 e 80 metros de profundidade.
O nigeriano Emmanuel Madu, de 33 anos, não sabia nadar, mas quando o avião caiu no Oceano Atlântico encontrou forças que ele não imaginava ter. Ele pensou em tudo o que tinha aprendido como um engenheiro, pensou em seus amigos, pensou em seus heróis de filmes de ação e como eles enfrentavam as dificuldades. Então nadou por horas. ‘‘Aprendi muitas coisas nos filmes’’, disse Madu, um ávido fã de filmes de ação. ‘‘Procurei manter-me boiando usando princípios usados na profissão de engenheiro e, acima de tudo, determinação’’, disse Madu com voz forte, apesar de seu corpo machucado e o choque que ainda podia ser visto em seus olhos.
Madu, resgatado duas horas depois do acidente por homens do Exército da Costa do Marfim, disse em seu leito num hospital de Abidjã que sabia que algo estava errado desde o início do vôo, que havia partido de Nairóbi e devia aterrissar primeiro em Lagos. No entanto, o mau tempo impediu o vôo KQ-431 de fazer essa escala, forçando-o a seguir até Abidjã.
A viagem de Madu, a primeira em um avião, começou em Dubai, nos Emirados Árabes, para onde ele havia ido com um velho colega de escola para comprar telefones por satélite. Ele pretendia expandir seus negócios de construção e engenharia na capital nigeriana, Abuja. Na volta, pararam em Nairóbi. ‘‘Eu estava no assento 26B, mas troquei de lugar com meu amigo’’, disse Madu chorando, sem saber se seu amigo está entre os outros nove sobreviventes.
‘‘Quero dizer que Deus me ajudou a sair dessa. Rezei. Não sou pentecostal, fundamentalista ou coisa do gênero, mas sei que sobrevivi com uma força sobrenatural.’’