As expulsões de cidadãos kosovares de etnia albanesa da província iugoslava de Kosovo foram intensificadas ontem e milhares de cidadãos foram escoltados por soldados sérvios até o posto fronteiriço de Morini, na Albânia setentrional, disseram fontes albanesas.
A maior parte dos novos refugiados provêm - segundo as fontes - de Mitrovica, a 200 quilômetros da fronteira, cidade onde está o mais antigo monastério ortodoxo de Kosovo e que, precisamente por isso, Belgrado exibe como prova da origem sérvia da província.
Os refugiados foram conduzidos a bordo de tratores, automóveis ou outro tipo de transporte, mas muitos deles foram obrigados a caminhar, numa penosa marcha de mais de quatro dias, já que o combustível é escasso.
Segundo fontes dos próprios refugiados, os soldados sérvios controlam a marcha a uma distância discreta, mas quando percebem que alguém se atrasa, ‘‘eles o maltratam para que se apresse, ou então o matam’’.
Automóveis e tratores chegaram ontem ao posto fronteiriço de Morini com suas janelas totalmente destruídas. ‘‘Foram os policiais sérvios com golpes que deram com suas metralhadoras’’, denunciaram os refugiados.
Os kosovares afirmam que são obrigados a transitar por este ‘‘corredor de terror’’ - denunciado pelo Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) - que conduz os campos, vales e bairros de Kosovo central até o território albanês, ameaçados pelos bombardeios da Otan e pela ação dos sérvios.
Jashar Zahiti, um refugiado que emigrou de Mitrovica, contou à ANSA que ontem, às 8h30 locais, um avião da Otan bombardeou uma posição sérvia a 200 metros do comboio em que caminhavam os civis.
Adem Dahuti, outro cidadão que estava no comboio dentro de seu próprio carro, viu cair muito perto de si duas granadas que não explodiram, mas não pôde identificar quem as havia lançado.
Vedhat Muharrem, também de Mitrovica, disse que uma mulher morreu durante a marcha e foi sepultada em plena estrada. Os testemunhos sobre velhos e crianças que não resistem à viagem e morrem no trajeto sobram. ‘‘Nestes casos, o comboio pára, sepultamos os mortos no caminho e então continuamos a marcha’’, disse um refugiado.
Crianças chorando e sem comer há vários dias, doentes, velhos e paralíticos aprofundam a tragédia de um retrato patético do êxodo. Uma jovem mulher deu à luz esta manhã um bebê depois de chegar no território albanês esgotada da viagem .

A organização francesa Médicos sem Fronteiras presta socorro precário aos refugiados, e cozinha sopa num caldeirão para alimentá-los, mas a quantidade não é suficiente para todos.
A maior parte dos refugiados continua a viagem até a cidade de Kukes. No campo de Morini, cerca de 60 mil pessoas vivem em condições bastante precárias, muitas delas sem ter sequer uma tenda para cobrir-se.
O jornal do Vaticano, ‘‘L’Osservatore Romano’’, apelou ao mundo ontem em sua primeira página para ‘‘deter a guerra’’ nos Bálcãs e formulou uma invocação dramática : ‘‘Basta...Pelo amor de Deus, pelo amor ao homem’’.
‘‘Velhos, mulheres e crianças fogem em busca de salvação até fronteiras que não sabem se vão encontrar abertas ou fechadas. E o pesadelo da guerra os persegue, os rodeia’’, disse o jornal.
‘‘Precisamos deter a guerra. É necessário fazer a paz vencer... Todo um povo percorre nesta última trágica primavera do século caminhos da Europa cuja paz foi roubada. Uma caravana humana oprimida pela dor e seguida pela morte é abandonada ao desastre da guerra’’, acrescentou.
O ‘‘Osservatore’’ denunciou que ‘‘para estas populações golpeadas e esmagadas, a cada dia horror acrescenta-se ao horror, cada hora reduz as expectativas, cada minuto parece afastar a fronteira da paz’’.

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