Associated Press
O presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, e o Parlamento sérvio aprovaram ontem o plano proposto pelo Grupo dos Oito (sete países mais ricos e a Rússia) para pôr fim ao conflito de Kosovo, mas a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) vai manter os bombardeios até que as ‘‘palavras sedutoras’’ do presidente iugoslavo sejam transformadas em fatos. A decisão de Belgrado foi comunicada por Milosevic ao negociador russo Viktor Chernomyrdin e ao presidente finlandês, Martti Ahtisaari, que se reuniram com ele.
‘‘Espero que a aceitação do plano leve a contatos entre militares a fim de que possamos aplicá-lo na prática, iniciar a retirada das tropas iugoslavas de Kosovo e suspender os bombardeios’’, disse Ahtisaari, que apresentou os resultados de seu encontra com as autoridades sérvias à cúpula da União Européia (UE), reunida em Colônia. O presidente finlandês fez uma ressalva: ‘‘Não assinei nenhum documento em Belgrado.’’
Pouco antes, Ahtisaari havia conversado com o subsecretário de Estado dos EUA, Strobe Talbott, que, por sua vez, entrou em contato com o presidente Bill Clinton.
Clinton classificou a notícia de ‘‘passo à frente’’, desde que Milosevic dê uma demonstração prática e verificável de suas intenções. ‘‘Há vários anos ele vem enganando a comunidade internacional’’, lembrou o porta-voz do Departamento de Estado, James Rubin. ‘‘Esperamos fatos e não palavras sedutoras.’’
Gehard Schroeder, o chanceler alemão que exerce a presidência rotativa da UE, reagiu com o mesmo otimismo moderado de seus colegas europeus. ‘‘Conseguimos um grande avanço político em direção da paz e não vamos deixá-la escapar de nossas mãos.’’
Chernomyrdin foi recebido quase como herói em Moscou. Ele é considerado o grande artífice do acordo diplomático, embora a oposição chame de ’’ menino de recado da Otan’’.
No plano - criticado pelos militares russos - constam todas as exigências da Otan para encerrar os bombardeios: fim da campanha étnica em Kosovo, retirada dali de todas as forças sérvias, garantias de retorno dos refugiados, autonomia política e administrativa para a maioria albanesa étnica e desembarque de uma força internacional para fazer cumprir o acordo. A aceitação dele por Milosevic foi recebida com alívio pela população sérvia - diante da perspectiva concreta do fim de 73 dias de bombardeios - que a classifica, no entanto, de capitulação.
O maior desafio para o presidente iugoslavo será agora convencer os sérvios que a destruição parcial do país serviu para alguma coisa. Os meios de comunicação estatais procuravam vender ontem o acordo como uma vitória do governo que ‘‘conseguiu manter a integridade do território’’ e tirar a questão da Otan (em teoria) e levá-la ao âmbito da ONU.
Antes de se pronunciar oficialmente, Milosevic submeteu o acordo ao Parlamento da Sérvia, que o aprovou por 136 votos contra 74 e 36 abstenções. O Partido Sérvio da Renovação, do ex-vice-primeiro-ministro Vuk Draskovic (demitido há duas semanas por falar demais), votou ao lado do Partido Socialista Sérvio (de Milosevic). A maior oposição ao documento partiu do Partido Radical, do ultranacionalista sérvio e ex-primeiro-ministro Vojislav Seselj.
O governo de Montenegro (que não escondeu sua simpatia pelo Ocidente durante o conflito) recebeu o desfecho da crise em Belgrado com preocupação. ‘‘A situação aqui é potencialmente perigosa’’, disse o ministro da Justiça, Dragan Soc. ‘‘Faz parte da lógica de Milosevic para se manter no poder encerrar uma crise e abrir outra’’, acrescentou dando a entender que Montenegro pode ser agora a chamada bola da vez.
A Otan partilha dessa preocupação, o que explicaria ter concentrado a maior parte de seus bombardeios ao sul da Sérvia - reduto eleitoral do presidente iugoslavo. O financiamento europeu da reconstrução da Iugoslávia seria condicionado ao afastamento de Milosevic, asseguram altos funcionários da UE.Parlamento sérvio aprova plano de paz proposto pelo Grupo dos Oito. Os EUA querem ‘‘fatos’’ e a Otan mantém campanha de bombardeios
France PressePrimeiro passoO Parlamento da Sérvia aprovou ontem o plano do Grupo dos Oito por 136 votos contra 74 e 36 abstenções, respaldando posição de Slobodan Milosevic. População iugoslava demonstra alívio com a possibilidade do fim dos bombardeios da OtanFrance PresseMoscouChernomyrdin, artífice do acordo, recebido com herói na RússiaFrance PresseWashingtonO presidente Clinton recebeu a notícia do acordo com reservas

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