Senado dá plenos poderes ao presidente
É preciso voltar mais de meio século no tempo a dezembro de 1941, quando o Japão atacou a base naval norte-americana de Pearl Harbor, no Hawaí para se encontrar a mais recente declaração formal de guerra dos Estados Unidos.
Embora dê plenos poderes a Bush, a resolução aprovada pelo Senado é mais limitada do que a que ele solicitou inicialmente. Na versão original do projeto de lei apresentado pela Casa Branca, o presidente pedia autorização para usar a força também de forma ''preventiva'', de modo a prevenir atos terroristas.
A demanda não foi bem recebida por legisladores democratas e mesmo por alguns republicanos. A versão aprovada permite que o presidente responda aos atos terroristas desta semana mas não lhe dá um cheque em branco.
''Há um tempo para falar e um tempo para agir'', disse a senadora republicana Kay Bailey Hutchison, do Texas, em apoio à decisão do Senado. A medida, embora mais restrita do que a que Bush desejava, parece dar-lhe um mandato suficiente para executar a estratégia agressiva, abrangente e sem meios-termos que ele concebeu para responder aos sequestros dos aviões e aos mortíferos ataques contra o World Trade Center e o Pentágono.
O vice-ministro da Defesa, Paul D. Wolfowitz, descreveu sem meias tintas os objetivos dos EUA nessa nova guerra. ''Não se trata apenas de capturar pessoas, julgá-las e puni-las, mas também eliminar os santuários (dos terroristas), remover seus sistemas de apoio e acabar com Estados que apóiam o terrorismo.''
Segundo Wolfowitz, a campanha militar na qual o país está prestes a embarcar não se limitará às operações a distância, com lançamento de mísseis contra alvos a dezenas e centenas de quilômetros de distância, sem riscos para as forças americanas. O vice-secretário de Defesa indicou que a estratégia incluirá, se necessário, a invasão e a ocupação de nações distantes por forças terrestres dos Estados Unidos e de seus aliados.
Para países como o Afeganistão, que abriga Osama bin Laden, o milionário saudita no topo da lista de suspeitos de Washington, ou Sudão e Paquistão, que têm relações com Bin Laden e seus protetores afegãos do Taliban, ou mesmo o Iraque, a escolha oferecida por Washington é clara: colabore com os EUA na campanha contra o terrorismo ou arque com as consequências.
Na quinta-feira, quando falou ao país com os olhos marejados depois de conversar com o prefeito e o governador de Nova York, Bush advertiu os inimigos dos EUA a não confundirem a tristeza que a tragédia provocou no país com fraqueza ou hesitação. ''Também somos duros e decididos e agora temos a oportunidade de fazer um favor a gerações (futuras) unindo-nos para açoitar o terrorismo'', disse.
O secretrário de Estado, Colin Powell, a figura mais moderada do gabinete de Bush, que está empenhado na construção de uma coalizão global contra o terrorismo, usou linguagem reminiscente da Guerra do Golfo, quando comandou as forças armadas americanas e promoteu aniquilar o inimigo. Ele disse que, depois que Washington terminar o trabalho de coletar, montar e apresentar ao mundo as provas sobre o envolvimento de Bin Laden nos ataques contra o World Trade Center e o Pentágono, ''iremos atrás de sua rede de apoio, daqueles que abrigaram e ajudaram'' os terroristas. ''Quando tivermos acabado com essa rede, continuaremos com um ataque global ao terrorismo em geral.''
Essa estratégia, que reflete os instintos políticos maximalistas e radicais da maioria dos membros na administração e do próprio presidente em matéria de segurança, contém óbvios riscos. Sem falar da natureza de um conflito entre um Estado organizado, que obedece a regras e depende de um sistema político e econômico aberto para existir, e fanáticos religiosos dispostos a ações suicidas e organizados em células terroristas em vários países, The New York Times lembrou ontem que o atrasado Afeganistão o alvo mais óbvio de um primeiro ataque americano foi ''ao longo dos séculos, o campo de batalha e o túmulo dos interesses de grandes poderes''.
Por ora, porém, esses riscos não diminuem a ira dos norte-americanos nem seu clamor para que o governo desencadeie, o quanto antes, uma ampla ofensiva de ações punitivas contra Bin Laden, seus protetores e o terrorismo internacional.
As pesquisas de opinião indicam que 70% acreditam que o país está em guerra e por margem de dois terços, dizem que estão dispostos a apoiar o governo nessa campanha militar mesmo que ela resulte em perdas no campo de batalha.





