Há uma semana a presidente argentina, Cristina Kirchner, conseguiu uma vitória eleitoral sem precedentes desde a volta da democracia, ao ser reeleita com 53,9% dos votos. Cristina obteve a maioria da Câmara e do Senado, além de conquistar - diretamente ou por intermédio de aliados - os governos de 20 das 24 províncias argentinas. Desta forma, ela estaria atualmente em condições de fazer o que os analistas argentinos começam a chamar de "La Gran Lula" (A Manobra Lula), em referência ao ex-presidente brasileiro Luis Inácio Lula da Silva.

De acordo com analistas, Cristina administrará uma base de poder - e influência popular - de tal magnitude que permitiria a ela "implantar" um sucessor leal em 2015, permanecer como o referencial político durante quatro anos e voltar à Casa Rosada em 2019.

No entanto, alguns especialistas políticos consideram que a presidente argentina poderia optar por outra via de manutenção do poder, entre elas, uma reforma constitucional para permitir uma segunda reeleição. "Acho que Cristina tentará a 're-reeleição'. Acredito nessa possibilidade porque nunca vi um peronista que, tendo chances de ganhar, diga que vai embora. É uma coisa do DNA do peronismo", disse ao Estado o historiador Jorge Lanata.

O sucesso de Cristina é relativamente recente, já que há exatamente um ano ela amargava o mais baixo nível de aprovação popular, com 36,9% de aprovação. Atualmente, ela conta com 63,3%, segundo a consultoria de opinião pública Management & Fit.

O ponto de inflexão foi a morte de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, candidato à presidência da República em 2011 e considerado na época o verdadeiro poder no governo de sua mulher. A imagem negativa de Cristina, que era de 44% na véspera da morte do marido, caiu - graças ao denominado "efeito viúva" - de forma acelerada para 20% apenas um mês depois do velório. Atualmente sua imagem negativa é de 19,1%.

"A morte de Kirchner foi a melhor coisa que poderia ter ocorrido a Cristina", afirmou José Antonio Díaz, editor da Notícias, principal revista de informação semanal do país.

Segundo Díaz, a popularidade da presidente argentina também cresceu porque sua própria imagem melhorou. Enquanto antes a ideia era a de que Néstor Kirchner comandava tudo nos bastidores, agora a sensação é que todas as decisões passam por Cristina. Enquanto a presidente subia, a oposição, desorientada após a morte de Kirchner, não conseguiu armar uma estratégia que lhe permitisse enfrentar o lançamento de Cristina.

De quebra, a presidente implementou um festival de subsídios que removeu setores da população da miséria, adotou medidas protecionistas para proteger a economia, aumentou os salários do funcionalismo público com reajustes substancialmente superiores à inflação oficial e elevou as aposentadorias.

O governo não tomou medidas para combater a escalada da inflação, mas estimulou o crédito que resultou num boom no comércio. Simultaneamente, a presidente elevou de forma exponencial a publicidade oficial para os meios de comunicação privados alinhados com seu governo. / A.P.

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