Segurança da sede da ONU gera polêmica
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quarta-feira, 20 de agosto de 2003
Bernard Estrade<br>France Presse 
Nova York- As Nações Unidas e os Estados Unidos trocam acusações sobre quem seria responsável pela segurança dos funcionários do organismo internacional no Iraque, um dia depois do atentado contra a sede da ONU em Bagdá, que matou 24 funcionários da ONU, entre eles o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello.
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, destacou a responsabilidade dos Estados Unidos, mas um funcionário da administração americana em Bagdá afirmou que as Nações Unidas eram responsáveis por garantir sua própria segurança.
O brasileiro Vieira de Mello, enviado especial de Annan ao Iraque, não alimentava ilusões. ''As Nações Unidas constituem um alvo vulnerável para todos aqueles que querem atacar nossa organização'', havia declarado no dia 22 de julho, durante sua última audiência diante do Conselho de Segurança.
''A potência ocupante é responsável pela lei, a ordem e a segurança na região'', disse o secretário-geral da ONU ontem em Estocolmo. ''Esperávamos que as forças da coalizão garantissem as condições para que pudéssemos cumprir nosso trabalho de reconstrução econômica e política e (...) para permitir a continuação do trabalho dos iraquianos. Mas isso não aconteceu'', lamentou Annan.
Na terça-feira, Fred Eckhard, porta-voz de Annan, já havia declarado que a responsabilidade da segurança em todo o Iraque - não apenas a dos funcionários da ONU, mas também a dos iraquianos - correspondia à coalizão anglo-americana.
Eckhard destacou que, de acordo com a resolução 1483, que define o papel da ONU no Iraque do pós-guerra, a coalizão é a potência ocupante, o que significa que suas responsabilidades em matéria de segurança são definidas pela Convenção de Genebra, que Washington garante respeitar.
Porém, em Bagdá o tenente Peter Rekers, porta-voz das tropas da coalizão anglo-americana, disse que a ONU era responsável por sua própria segurança. ''A ONU havia contratado uma empresa particular para cuidar da segurança ao redor do complexo'', acrescentou.
As declarações do militar vão de encontro às afirmações feitas por algumas fontes do governo americano na terça-feira: as Nações Unidas não desejam ser protegidas abertamente pelas tropas americanas e possuem suas próprias forças para garantir sua segurança.
No Iraque, a ONU quis se afastar o máximo possível dos funcionários americanos e britânicos, que estabeleceram seu quartel-general atrás dos muros de um antigo palácio de Saddam Hussein e mantêm contatos esporádicos com os iraquianos. ''Estamos aqui para ajudar o povo iraquiano. Não queremos viver isolados'', havia declarado Salim Lome, porta-voz da ONU em Bagdá.
''As Nações Unidas fizeram uma opção: os funcionários não queriam correr o risco de ser confundidos com os oficiais dos países ocupantes. Foi, em grande parte, com base nessa diferença que Sérgio Vieira de Mello acreditava ser confiável aos olhos dos iraquianos'', afirmou um diplomata que pediu anonimato.


