Sarkozy anuncia pacote para elevar renda
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Folhapress 
Paris - A sensação de bolso vazio é a principal preocupação dos franceses. Uma sondagem encomendada recentemente pelo governo francês revela que, para 58% dos entrevistados, o poder aquisitivo caiu ao longo do último ano. Essa impressão de empobrecimento impede projetos futuros de consumo. Para 71% dos entrevistados, compras importantes, como carro, móveis ou eletrodomésticos, não estão nos planos de curto ou médio prazo, e 47% afirmam que certamente não comprarão nada de grande valor.
Esses dados traduzem um mal-estar que levou o presidente da França, Nicolas Sarkozy, a anunciar um pacote de medidas para elevar a renda dos franceses. Sem necessariamente abrir os cofres do Tesouro, Sarkozy tenta estimular o consumo. Ao longo da campanha presidencial, ele chegou a prometer que seria o presidente do aumento poder aquisitivo, com o seu slogan trabalhar mais para ganhar mais. Esse conceito, aliás, é um dos pilares das suas medidas.
A partir de 1º de janeiro de 2008, os trabalhadores que tiverem folgas acumuladas poderão convertê-las em dinheiro diretamente com o empregador e com menor burocracia. A flexibilização da jornada de 35 horas é outra das iniciativas do presidente francês.
Para Sarkozy, as medidas darão novo fôlego à economia. Nos últimos cinco anos, enquanto a média de crescimento das economias da OCDE foi de 2,5%, na França ela ficou em 1,5%. Para este ano, o Insee, órgão de estatísticas do governo francês, projeta uma taxa minguada de 1,8%.
A crença na eficácia do pacote não é consensual. Na avaliação de Guillaume Duval, redator-chefe da publicação Alternatives Economiques, a melhoria da renda passa, primeiro, pelo crescimento econômico. Quando tivemos um crescimento vigoroso , entre 1997 e 2001, isso foi traduzido rapidamente numa expansão do poder aquisitivo global. Desde 2002, o crescimento tem sido muito fraco e não vejo luz no fim do túnel, disse.
Euro x alta dos preços
Aliada à situação de salários depreciados, os franceses enfrentam uma forte alta dos preços, especialmente dos alimentos (2,3% entre outubro de 2006 e outubro de 2007) e dos transportes (4% no mesmo período), impulsionada, em boa medida, pela alta do petróleo.
Eu sinto que a vida ficou mais cara com a entrada do euro. Uma ida ao supermercado com 10 não dá para nada, constata Morgan Dalin, que trabalha na hotelaria em Paris. Na transição do franco para o euro, o preço de alguns itens de fato aumentou. Muitos economistas, porém, argumentam que a erosão do poder aquisitivo em decorrência do euro é um efeito psicológico. Desde 2002, há um descolamento entre a inflação sentida e a inflação real. A moeda européia não foi inflacionária, ainda que a sua adoção tenha embaralhado as referências dos consumidores e as suas percepções dos preços os leve a uma inflação superestimada, diz a economista Sylvie Lefranc.
Na França, os caixas de supermercado continuam a imprimir os preços em francos ao lado do preço em euro. Para analistas, isso dificulta ainda mais a familiarização com a moeda européia, já que, para boa parte dos franceses, a referência continua a ser o franco.
Outro problema apontado pelo especialista é o que ele considera uma sucessão de erros das políticas públicas de estímulo ao emprego. Elas foram muito atreladas ao desenvolvimento de empregos com baixos salários. Nós somos o país da Europa com o maior número de trabalhadores que ganham o Smic (salário mínimo francês), avaliou.


