Os restos mortais de Nicolau II chegaram ontem à antiga capital imperial, São Petersburgo, 80anos depois da execução do último czar pelos comunistas. O presidente russo Boris Yeltsin aposta politicamente neste ato, destinado a reconciliar o país com seu passado.
O czar, que teve o corpo enterrado pelos bolcheviques numa fossa comum junto com sua família, recebeu uma homenagem nacional, transmitida ao vivo pela televisão durante várias horas.
Ao chegar ao aeroporto Pulkovo de São Petersburgo, o caixão imperial, acima do qual repousavam o sabre e as armas dos Romanov, foi saudado por uma guarda de honra, de luvas brancas e queixos levantados.
Uma hora mais tarde, o cortejo fúnebre foi saudado às portas da fortaleza Pedro e Paulo, às margens do rio Neva, com tiros de canhões.
O momento mais esperado da cerimônia é o enterro, hoje, dos restos de Nicolau II e de sua família na catedral da fortaleza, ao lado dos demais czares russos desde Pedro o Grande.
O presidente Boris Yeltsin participa da solenidade.
Há algumas semanas o Kremlin havia comunicado que ele não compareceria à cerimônia e seria representado pelo vice-primeiro-ministro, Boris Nemtsov, o encarregado da organização do enterro. Yeltsin decidira não ir ao funeral depois que o patriarca da Igreja Ortodoxa russa, Alexis II, anunciou em junho que não iria oficiar a missa porque o clero não estava convencido da autenticidade dos ossos. O patricarca determinou, então, que apenas padres aspirantes poderiam realizar o serviço religioso, sem referir-se aos restos como pertencentes aos Romanov.
‘‘Depois de refletir por longo tempo e conversar com muitos cidadãos, cheguei à conclusão de que deveria ir hoje a São Petersburgo’’, disse Yeltsin em uma declaração transmitida pela TV. ‘‘A verdade foi escondida por 80 anos. Nós teremos de contar a verdade hoje e eu deveria tomar parte. Essa é a coisa certa a ser feita, do ponto de vista humano.’’
Uma parte dos meios religiosos e monarquistas questionam a autenticidade dos restos, enterrados em 1991 numa fossa comum perto de Ekaterinburgo, a cidade dos Urais onde foi a família imperial, executada na noite de 16 a 17 de julho de 1918.
Uma comissão governamental de peritos, depois de anos de investigações e testes genéticos, concluiu que as ossadas correspondiam sim às do czar Nicolau II, às de sua mulher Alexandra Fedorovna, às das três filhas - Olga, Tatiana e Anastasia -, às do médico da família e de três empregados domésticos.
A polêmica sobre a autenticidade dos restos motivou o patriarca de todas as Rússias, Alexis II, a recusar-se a viajar a São Petersburgo. A Igreja Ortodoxa insiste que o menor vestígio de dúvida tem de ser removido porque estuda a canonização do czar.
O regresso de Nicolau II à antiga capital imperial esteve cercado de pesar e emoção.
Mais de 60 descendentes da família imperial Romanov, todos eles residentes no estrangeiro, se reuniram para celebrar a ocasião e reencontrar-se com uma pátria cuja língua muitos já esqueceram.France Presse






Último atoUma das últimas fotos dos membros da Família Imperial russa, morta pela Revolução comunista (foto superior). Abaixo, militares carregam os caixões que serão sepultados hojeOitenta anos depois do fuzilamento, os restos mortais da família Imperial russa repousarão em São Petersburgo

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