Rússia faz acordo com Iraque, diz jornal
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de fevereiro de 1999
Agência Estado 
A Rússia firmou acordos secretos no valor total de US$ 160 milhões para reforçar o sistema de defesa antiaérea do Iraque e modernizar as esquadrilhas de caças MiG-23 e MiG-29 da Força Aérea iraquiana, revelou ontem o jornal britânico The Sunday Telegraph, citando fontes diplomáticas em Moscou.
Segundo o jornal, a iniciativa é uma séria ameaça aos aviões americanos e britânicos que patrulham duas zonas de exclusão aérea no Iraque - uma no norte (para proteger a minoria curda de ataques do regime de Saddam Hussein) e outra no sul (para garantir a segurança da comunidade xiita). Desde dezembro têm ocorrido confrontos quase diários entre os aviões aliados e as defesas iraquianas nessas zonas.
Os acordos foram assinados em Moscou nos dias 13 e 14 de janeiro, após uma visita do ministro iraquiano dos Transportes e Comunicações, Ahmed Murtada Ahmed Khalil, à capital russa. Um funcionário da chancelaria russa negou-se confirmar ou desmentir a informação do Sunday Telegraph, mas disse que o ministério poderá divulgar amanhã um comunicado a respeito.
A rede de televisão russa NTV informou que funcionários da fábrica dos MiGs disseram não saber de nada sobre os acordos. Segundo o Sunday Telegraph, antes que os acertos fossem finalizados, o ministro Khalil visitou várias fábricas de armas e discutiu a compra de novos MiGs.. O jornal informou que a decisão de fornecer ajuda militar a Saddam -violando, assim, o embargo imposto pela ONU ao Iraque em 1990 - foi aprovada pelo primeiro-ministro russo, Yevgueni Primakov, em 7 de dezembro.
A Rússia tem criticado constantemente os ataques aéreos que os EUA e a Grã-Bretanha vêm lançando contra alvos militares no norte e sul do Iraque para debilitar a capacidade bélica do país e tentar forçar Saddam a permitir que a Unscom, da ONU, volte a inspecionar instalações suspeitas.
A Unscom, chefiada pelo australiano Richard Butler, retirou suas equipes do Iraque em dezembro, antes de uma ampla ofensiva anglo-americana de quatro dias contra o país. Bagdá exige o fim do embargo da ONU e nega-se a permitir a volta dos inspetores por considerá-los espiões a serviço de Washington. Essa acusação é reforçada por denúncias da própria imprensa americana e do ex- inspetor americano da Unscom Scott Ritter de que integrantes da comissão realizaram, de fato, tarefas de espionagem.
Ontem mesmo, o vice-primeiro-ministro iraquiano, Tareq Aziz, chegou à Turquia para pedir que Ancara retire a permissão de que os aviões militares americanos e britânicos encarregados de patrulhar os céus iraquianos utilizem bases turcas. Aziz entrou na Turquia por terra, pela travessia de Habur, depois de atravessar - escoltado por guerrilheiros curdos - o Curdistão iraquiano, região que está além do controle do regime de Saddam desde o fim da Guerra do Golfo, em 1991. Logo após atravessar a fronteira, Aziz embarcou num avião para Ancara.
Apesar da visita, o ministro turco de Relações Exteriores, Ismail Cem, disse que a Turquia - país membro da Otan - não tem intenção de impedir os vôos militares anglo-americanos a partir de seu território. Nossa política não muda por causa de uma visita, ressaltou.


