Por um caminho que serpenteia através de bosques e prados passam os elegantes carros e pick-ups esportivas de muitos russos endinheirados. À beira do caminho se vêem homens bronzeados que cortam capim com facões e mulheres que varrem a casa com vassouras de palha. Junto à rodovia, ambulantes vendem batatas e feixes de lenha. Mas há também estufas que oferecem arbustos japoneses e móveis de jardim, antes artigos considerados decadentes e hoje cobiçados pelos novos ricos russos. Ao longo dos quase 40 km de estrada que conduzem de Moscou a Zvenigorod, nos subúrbios residenciais da Nova Rússia, ricas mansões de ladrilho vermelho se alternam com cabanas de madeira, algumas das quais remontam à era anterior à revolução comunista de 1917.
A Rússia neste verão de 2001, Ano Dez da era pós-soviética, é um quadro de consumismo desenfreado e agressivo, no qual as novas riquezas coexistem com velhas imagens da mais arraigada pobreza.
Em um país onde o sistema comunista distribuía moradias e quase não permitia viagens ao exterior, os outdoors da via que conduz a Zvenigorod proclamam a mudança: viagens à Grécia; restaurantes japoneses; casas de verão; roupas de grife dos grandes costureiros; escolas particulares.
Se alguém deixa a estrada em determinado ponto a polícia o obriga a dar meia-volta: ali vive numa dacha (casa de campo) o ex-presidente Boris Yeltsin.
Em outra bifurcação, no entanto, o viajante se depara com uma mansão de ladrilhos abandonada no meio da construção, cujas paredes são escaladas por crianças russas vestidas de farrapos fumando furtivamente nas sombras.
Há dez anos, em 19 de agosto de 1991, Yeltsin ergueu sua figura corpulenta sobre um tanque e enfrentou uma tentativa de golpe dos comunistas intransigentes, dando ao mundo uma imagem definida como o fim de uma era. No Natal seguinte, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) se dissolveu e as 15 repúblicas iniciaram suas trajetórias independentes.
Foi um cataclisma que mudou a face política do mundo, e cujas repercussões ainda podem ser sentidas em guerras civis desde a Chechênia até a Ásia Central e nos corredores diplomáticos desde a Casa Branca até Pequim.
Ainda hoje, despojada de suas repúblicas soviéticas irmãs, a Rússia continua sendo o maior país do mundo.
Mas o antigo monolito comunista, a superpotência que abarcava 11 fusos horários, é agora um conglomerado cujas características principais são uma fina crosta de pessoas muito ricas, um núcleo muito espesso de pobres e uma classe média muito vulnerável. Ou seja, o oposto da sociedade igualitária que o comunismo quis construir e da democracia próspera que a Rússia quer ser.
Foi uma corrida louca, que de modo algum terminou.
Apenas dez anos depois de 100.000 pessoas responderem ao chamado de Yeltsin para enfrentar a tentativa de golpe, muitos recordam o início dos anos 90 como uma era de liberdade e paz civil. Mas já em 1993 Yeltsin recorria à força para submeter um Congresso rebelde e em seguida para dominar uma rebelião separatista na Chechênia.

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