Mais de 150 mil refugiados hutus que estavam na Tanzânia já tinham atravessado a fronteira com Ruanda até a tarde de ontem, segundo informou o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Domingo, o Exército da Tanzânia havia fechado os principais acampamentos perto da fronteira e, a golpes de cassetete, forçou os refugiados a empreenderem a marcha de retorno. As autoridades tanzanianas querem repatriar todos os cerca de 600 mil refugiados ruandeses que estavam em seu território até o dia 31.
Aproximadamente 300 mil exilados iniciaram a caminhada em direção à fronteira ruandesa nos últimos dias. Segundo cálculos do Acnur, 15 mil deles entram em Ruanda a cada hora. Enquanto isso, os principais dirigentes africanos inauguravam em Nairobi uma cúpula destinada a enfrentar o drama humanitário na região.
Dezenas de milhares de radicais hutus - responsáveis pelo massacre de cerca de 1 milhão de tutsis e hutus moderados durante a guerra civil ruandesa de 1994 - tentaram fugir dos campos nos últimos dias para evitar a repatriação, mas foram impedidos pelos soldados da Tanzânia. Segundo a porta-voz do Acnur, Christiane Bertiaume, a nova marcha maciça de retorno a Ruanda tem se desenvolvido ‘‘de forma pacífica e ordenada’’.
Desde a intensificação de uma ofensiva dos rebeldes tutsis no leste do Zaire, no fim de outubro, pelo menos outros 500 mil hutus que viviam em território zairense também já retornaram a Ruanda. Os guerrilheiros seguem avançando no país, agora com o objetivo de derrubar o governo zairense. O presidente e homem forte do país, Mobutu Sese Seko - que havia meses se recuperava na Europa de uma cirurgia na próstata - deve retornar hoje ao Zaire.
Às portas ‘‘Três grupos diversos que somam 150.000 refugiados foram identificados na estrada para Ruanda, e deverão chegar à fronteira nos próximos dias’’, disse o porta-voz do Acnur em Ruanda, Paul Stromberg. ‘‘Um grupo de 70.000 pessoas se acha a menos de 20 km da fronteira, outro de 30.000 nas proximidades do campo de Benaco e outro de 50.000 mais ao sul, entre os campos de Kitali e Keza’’, acrescentou o porta-voz. Após o regresso de mais de 4.000 pessoas sábado, e 25.000 domingo, o fluxo de refugiados se ampliou consideravelmente ontem.
Com o aumento do número de repatriados, o governo ruandês pediu ajuda internacional para enfrentar mais este problema no seu minúsculo território, onde começam a surgir graves problemas com alojamento e alimentação.
A situação no leste do Zaire, em mãos de rebeldes zairenses desde o final de outubro, é um dos principais capítulos da cúpula de Nairobi, à qual assistem os presidentes de nove países africanos, com as destacadas ausências de Zaire e Burundi. O governo de Kinshasa não respondeu ao convite do presidente queniano, Daniel Arap Moi, que convidou o primeiro-ministro zairense, Kengo wa Dondo. A reunião foi aberta ontem pelo presidente sul-africano Nelson Mandela.
Burundi não foi convidado para a cúpula, pois seus vizinhos não reconhecem o governo militar que em julho passado deu um golpe de Estado. Na verdade, a situação em Burundi, assim como em Ruanda, figura também na ordem do dia da cúpula de Nairobi.
O governo burundinês qualificou de ‘‘paradoxal’’ sua ausência, na medida em que o país atravessa uma grave crise que pode afetar toda a região. Segundo um documento que remeteu à cúpula a rebelião hutu, o Conselho Nacional para a Defesa da Democracia (CNDD) estima que 35.000 pessoas foram assassinadas em Burundi desde a chegada ao poder do major Buyoya.

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